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Colunistas

Literatura? TalvezPor Manuela Fonseca
Barreiro

Estou muito grata a todas as pessoas, tão solidárias, que me transportaram da quimioterapia e da mesa operatória para um renascimento pessoal que me terá posto na mente, mãos e computador a minha própria criação, através dos Sinais que são Letras, Pontuação, Reflexão, Amor, outros Sentimentos e Vida.
Literatura? Talvez.

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Literatura? Talvez Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Fui sempre mimada por quase todos – o nascimento, aguardado durante nove anos, vários irmãos perdidos antes de mim, puseram a Rua Dr. António José de Almeida em guarda à, espera, finalmente, de uma boa notícia, na última gravidez da minha mãe – a que, felizmente, aconteceu comigo.

Acabei por nascer mais depressa do que era previsto, aos sete meses de gestação e com um quilograma – dizem que pesado por excesso para os pais ficarem mais descansados…

Se calhar, tantos cuidados trouxeram-me, precocemente, o mundo dos livros, vários, oferecidos em tempo de escassez – vim ao Mundo em 30 de Novembro de 1949 – da leitura, de dizer poemas, ensinados pelo meu pai, Maquinista dos Caminhos-de-Ferro, homem culto, que tocava bandolim, sensível a Camilo e Eça que, quando estava em casa, lia à minha mãe, com um problema de visão congénito, parcialmente resolvido só depois do 25 de Abril, acto da Ciência que o companheiro já não teve a alegria de ver, bem como a data da Liberdade.

Formador de colegas, o ferroviário em quarta geração de homens à frente de uma locomotiva, deixou-me o gosto pelas Artes, as Belas Letras, a produção de textos – em que o imitava depois de o ver fazer sonetos, junto aos eucaliptos da Tapada Grande da Mina de S. Domingos (agora cosmopolita devido à praia nela construída, Bandeira Azul da União Europeia), o que fazia só junto de mim, no tempo do regresso à companhia dos parentes da minha mãe.

(Escrevia, em miúda, tão envergonhada que deitava fora os cadernos onde depositava grande animosidade contra a ditadura, poemas de apreço pela natureza e pelo que a avó paterna – não conheci os progenitores da mãe – me filtrava da sua Religião, a Católica.
O Barreiro, Albufeira, a Mina viram-me escrever; o primeiro recebeu as primeiras folhas, rasgadas, e deitadas no lixo.
As três terras viram-me, dezenas de anos após tais actos, com a confiança suficiente para me dar ao público / destinatário.

Trinta e sete anos como professora, mais de metade deles também como formadora, em Programas da Escola Superior de Educação de Setúbal (o regresso, com profissional, à capital do Distrito, onde fiz o Liceu, foi uma alegria que durou vinte e dois anos, subitamente terminados por um problema grave) e Europeus, deram-me certezas nas palavras, passadas ao papel, na abordagem de assuntos das várias vertentes da profissão, de Lisboa a Nova Iorque.
E também nas criativas, editadas em vários jornais e revistas.

Tecidos de letras indicavam que, para o dia em que as aulas, os alunos, os colegas, os funcionários, a azáfama de um estabelecimento de Ensino Superior – cujo edifício, traçado por Siza Vieira, rodeado por árvores e arbustos, com belos pátios e relvados que têm admirado estudantes de Arquitectura da Aldeia Global – fossem uma memória / recordação feliz no período de aposentação e eu produzisse Literatura.

Sim, isso aconteceu cedo, demasiado cedo, revoltantemente cedo; dei a última aula nos últimos cinco minutos (quem me diria?) de actividade formal.
Foi em 2007.
Tive uma ameaça cinco anos antes, à qual foi dada a maior atenção, consegui voltar ao meu bem-aventurado labor profissional que foi deixado, à pressa e sob grande incómodo, num radioso dia de Maio, aflitos os olhos dos alunos que me amparavam.

Passou o tempo, melhoraram as coisas para mim.
Profissionais de saúde, familiares e amigos têm minorado, no encorajamento, sistemático, que me dão, a gravidade da situação na qual – e apesar dela – tenho os dias cheios.
Cheios dos aromas do Rio e da flora, cheios de esperança nos meus filhos, no Barreirense, cheios de palavras para eu recriar.

Estou muito grata a todas as pessoas, tão solidárias, que me transportaram da quimioterapia e da mesa operatória para um renascimento pessoal que me terá posto na mente, mãos e computador a minha própria criação, através dos Sinais que são Letras, Pontuação, Reflexão, Amor, outros Sentimentos e Vida.
Literatura? Talvez.

*Manuela Fonseca
*Colunista do Jornal Rostos

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