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EscravaturaPor Pedro Estadão

Nenhum homem é livre se não puder decidir o seu destino e torna-se efectivamente um escravo se houver outro alguém que disponha abusivamente sobre o seu salário, mobilidade ou à sua disponibilidade para trabalhar.

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Escravatura Por Pedro Estadão

Por Jornal Rostos

"...all persons held as slaves in the Confederate states will thenceforward and forever, be free."

Abraham Lincoln, 1 de Janeiro de 1863

Apesar de apenas a 23 de Junho, Stand Watie, Chefe dos Cherokees ter apresentado a rendição, completam-se hoje, dia 2 de Junho, 147 anos, da assinatura dos termos de rendição do exército confederado, pelo General Kirby Smith, que pôs termo à Guerra Civil Americana. Este conflito serviu de pretexto político a Abraham Lincoln para decretar a emancipação dos escravos nos Estados Unidos da América, fará, no final deste ano, 150 anos. Este acto é encarado universalmente, apesar de incorrectamente, como o momento definidor do fim da escravatura no mundo. Importante e marcante, sim, universal, não foi. Continuam, hoje em dia, a haver paises que dão albergue a esclavagistas e até a praticar esclavagismo de Estado. Ora, isto não seria tão importante, se não estivéssemos já bem entrados no Séc. XXI e um destes paises não fosse o mais populoso do planeta.

Os governos ocidentais, incluindo o Americano, continuam, em 2012, a compactuar com a utilização de mão de obra escrava nos paises amigos do Médio e do Extremo Oriente. O tema saiu de cima da mesa. Nasceram, entrentanto, novas formas de escravatura, que se reflectem no crescente volume de tráfico de seres humanos para exploração sexual a partir dos Balcãs e das estepes da Eurásia Central. E depois, existem as formas de escravatura dissimulada, como a importação de trabalhadores clandestinos para explorações agrícolas do Norte Ocidental, a sub-contratação ilegal e depois não paga de operários para a construção civil na Europa, e mesmo, a existência de condições de pró-escravatura em todos os países Africanos e Sul-Americanos onde os vencimentos mínimos estão abaixo do limiar de subsistência dos indivíduos e no Sudoeste Asiático onde milhões de pessoas ainda trocam trabalho braçal por comida.

Nenhum homem é livre se não puder decidir o seu destino e torna-se efectivamente um escravo se houver outro alguém que disponha abusivamente sobre o seu salário, mobilidade ou à sua disponibilidade para trabalhar. Se estes três direitos elementares forem recusados, um Homem, torna-se escravo de outro.Esta foi luta de sucessivas gerações desde tempos imemoriais: a luta pela liberdade e igualdade dos indivíduos.

Sendo cronista, sou dado a exageros estilisticos e à formulação de comparações absurdizantes para ilustrar os meus pontos de vista, pelo que não será estranho se eu vos disser que aquilo que vejo no meu pais é, nem mais nem menos que um caminho para a escravatura: uma escravatura de massas, de um tipo nunca antes visto, em que um pequeno grupo de senhores escraviza toda uma nação, postulando sobre toda e qualquer possibilidade de auto-determinação e decisão do seu próprio destino. Uma escravatura que há muito deveria ter sido abolida e que é agora re-editada com novos nomes, com novos esclavagistas e novos escravos: nestes tempos de globalização, é prático pôr de joelhos nações inteiras. Gregos, Portugueses, Espanhóis, Italianos e os que vierem a seguir.

Não tenho ilusões de que as coisas melhorem nos próximos tempos, mas tenho uma certeza: atingimos um ponto em que a mudança de paradigma de governo do mundo é inevitável. De uma forma ou de outra, para o bem ou para o mal, as proximas duas gerações vão definir o rumo da humanidade para os próximos milénios. O Mundo é global, a escolha é óbvia e, também ela, para toda a Humanidade. Teremos de escolher entre o governo do ter e o governo do ser, e essa escolha, que mais uma vez começa aqui, na Europa, terá implicações universais para todos os Homens.

Cada vez que houver mais um país a cair na rede da Troika, os números e a força dos implicados aumentará, de um lado, e de outro. O choque é inevitável.

Espero, para o bem de todos nós, que o ser supere o ter e nunca mais se criem novas formas de escravatura neste mundo, porque receio bastante que a próxima venha a ser global.

Pedro Estadão
2 de Junho de 2012, Bar-Le-Duc, Lorena, França

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