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A Parábola do JavaliPor Pedro Estadão

Ao longo de 20 anos, os países do Norte investiram na nossa formação académica, chegada a hora certa, foi Bolonha, para harmonizar as qualificações. Agora, está na hora de lhes mandarmos os recursos humanos que lhes prometemos há três décadas. O nosso governo, de forma envergonhada, já mandou a malta emigrar. A única forma de pagar esta crise é com mais 10% do PIB vindo dos emigrantes, (é dinheiro puro).

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A Parábola do Javali Por Pedro Estadão

Por Jornal Rostos

Era uma vez um javali que vivia no meio de um chaparral, a vida dele era dificil: tinha que fuçar as bolotas que caiam das árvores e que andar muito para chegar à água, que nem sempre encontrava Nesses dias, bebia lama. Um belo dia, na sua existência solitária, vai a caminho da água e encontra uma vedação, entra em pânico, arremete duas vezes contra o arame farpado e magoa-se, quando olha para o lado, vê uma bela vasilha cheia de água limpa e fresca, atira-se lá para dentro e regala-se com a fartura. No dia seguinte, dá uma volta pelos seus domínios e apercebe-se que se encontra completamente cercado pela vedação, mas não se importa, porque além de ter àgua, a comida também passou a ser mais fácil de encontrar, frequentemente, aos montes, também junto à vedação. Um belo dia de inverno, sente um cheiro novo, vai investigar e encontra uma fêmea da sua espécie meio combalida e maltratada. Agradece ao Deus dos javalis por aquele acontecimento, pois passou a ter uma companhia. Ensina-lhe o lugar da comida e da água e a natureza segue o seu curso. Quando chega a primavera, nasce a primeira descendência do nosso javali. Os dias passam felizes, ninguém para o chatear, água e comida com fartura. Um dia, não encontra a água. Mas ainda de lembra onde era o riacho: se, ao menos... E, mesmo ao lado, encontra a porta aberta, esgueira-se por ela. A última coisa que ouve são os cães a ladrar, e depois... o tiro.

Sempre quis começar uma crónica por "era uma vez...", foi desta. A partir daqui, o que estiver escrito pode, ou não, ser pura coincidência.

Dado número um:

Nos anos 70, quando, na maior parte da Europa do Norte, a preocupação principal era a baixa de natalidade e o envelhecimento da população, em Portugal vivia-se o fenómeno oposto, esta situação atingiu o seu pico no início dos anos 80, pouco antes da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia. Nesses anos, as nossas escolas abarrotavam... Não haviam professores suficientes e as turmas eram enormes. Havia uma vontade enorme de educar aquela gente toda, mas não havia dinheiro. Faltavam sempre muitos materiais e as famílias nem sempre podiam comprar livros novos, pelo que os que haviam, passavam de uns irmãos para os outros. A partir do dia em que passámos a fazer parte da Europa, porque até então tinhamos sempre sido um primo enjeitado, passou a haver dinheiro para tudo: construiram-se novas escolas, formou-se e contratou-se uma nova fornada de professores, e até passaram a haver pavilhões desportivos um pouco por todo o lado... As instalações escolares multiplicaram-se como os cogumelos. Depois, veio a altura deste pessoal todo entrar na idade universitária e o mercado fez o resto, para além do natural aumento das vagas nas Universidades públicas, apareceram as privadas para dar vazão ao resto. O resultado é que, ao contrário da maior parte dos paises da Europa, temos hoje a geração mais qualificada de sempre e em quantidades inauditas, que o nosso mercado não é capaz, de forma alguma, de absorver.

Dado número dois:

Historicamente, tanto Portugal, como a Grécia e a Irlanda são paises relativamente pobres, com os recursos naturais practicamente esgotados e sem a dinâmica económica necessária para atingirem os niveis de desenvolvimento da Europa Central e do Norte. A pobreza congénita e situações políticas e sociais complicadas levaram sucessivas gerações de Portugueses, Gregos e Irlandeses à emigração. Pode-se mesmo dizer que são povos tipicamente emigrantes, uma vez que, nos três casos, existem mais nacionais até à terceira geração fora dos paises, do que, a viver neles. O estímulo necessário para os fazer emigrar não é muito, basta uma crise como a actual, e zás, lá vai mais uma leva de gente.

Dado número três:

De acordo com vários documentos da União Europeia, é sabido que a adesão dos países de Leste à União tem como um dos principais atractivos a renovação demográfica da mesma, e a Estratégia de Lisboa propõe mesmo que, para obviar este problema, a Europa "está empenhada juntamente com os Estados-Membros no desenvolvimento de uma política comum de imigração legal. De facto, durante os próximos 20 anos, a Europa deverá atrair uma mão-de-obra externa qualificada a fim de satisfazer as necessidades do mercado de trabalho." Repararam na parte onde se refere "qualificada", não repararam?

Dado número quatro:

A Europa Central e do Norte, (a tal que contribui para o orçamento da União e que financiou, em parte substancial, os meus estudos e os dos colegas da minha geração), chegou ao ponto que projectava há trinta anos atrás, tendo economias altamente desenvolvidas que são altamente deficitárias em pessoal técnico qualificado, estão visivelmente à rasca com esta situação e em risco de perder a unica vantagem estratégica real que têm em relação às economias emergentes, que é a tecnológica. A depressão demográfica que enfrentaram dos anos 60 em diante, está a começar a fazer sentir os seus efeitos, especialmente no que diz respeito à quantidade de gente que hoje vive das reformas e pensões e no que diz respeito à falta de gente qualificada para manter economias altamente complexas em estados elevados de produtividade.

Dado número cinco:

A 1 de Janeiro de 1986, quando aderiu à CEE, o principal potencial que Portugal apresentava era precisamente um boom geracional imprecedente, com boas possibilidades de formação em massa de técnicos qualificados, por ser um país suficientemente pequeno para o investimento não ser caro e ter as caracteristicas necessárias para ser uma boa fonte de recursos humanos para a Europa do Norte. Ao longo das décadas de 70 e 80, cerca de 10% do PIB português era derivado das remessas dos emigrantes: em grande parte foi esse dinheiro que ajudou Portugal a recuperar económicamente do 25 de Abril e da descolonização e a colocar-se em posição para aderir à União Europeia. 10% do PIB é muito dinheiro, a Autoeuropa só vale 0,8% do mesmo PIB, os emigrantes, para Portugal, nesses anos, valiam mais de 10 Autoeuropas. Em 2011, as remessas dos emigrantes estavam reduzidas a cerca de 2% do PIB.

Dado número seis:

Existe, desde que me lembro, no nosso país, uma estranha compulsão para a aprendizagem de linguas estrangeiras, principalmente, a partir dos anos 80. Quando falamos a 6ª lingua mais utilizada no mundo, parece estranho. Aliás, parece ainda mais estranho se compararmos os nossos níveis de literacia em línguas estrangeiras com os dos restantes países da União Europeia. Dirão que o esforço foi feito devido à nossa vocação turística, mas eu não acredito. Paris recebe 20 milhões de turistas por ano e se alguém se quiser desenrascar, tem que falar francês, porque um parisiense que fale outra língua, ou é português, ou é árabe, ou, se for francês, nem na escola aprendeu. À excepção da Holanda, da Suécia e da Finlândia, que têm das linguas menos faladas do mundo e têm que se desenrascar, Portugal é o país europeu com mais cidadãos com nível escolar elevado em língua inglesa, e ainda tem os Zezés Camarinhas. Mas, não chegava, por isso, ensinaram-nos não uma, mas três línguas estrangeiras ao longo da nossa vida escolar, ou, pelo menos duas, aos que tiveram menos sorte e na sua área não haviam professores de Alemão. Porque raio é que um português, que fala a 6ª lingua mais falada no mundo, havia de aprender, na escola pública, o alemão, que é uma das linguas menos faladas do mundo? Como nota colateral, acrescento que ensinar a totalidade da população escolar a falar línguas estrangeiras e não fazer mais investimentos significativos na área do turismo, não é investir no turismo: é tanga!

Conclusão:

Desconfio que já perceberam onde é que esta crónica nos vai levar. Eu podia continuar a despejar mais alguns destes dados insignificantes, mas está na hora de terminar. Pois é: chegou a hora da cobrança! E a cobrança não se faz, directamente, em dinheiro. Ao longo de 20 anos, os países do Norte investiram na nossa formação académica, chegada a hora certa, foi Bolonha, para harmonizar as qualificações. Agora, está na hora de lhes mandarmos os recursos humanos que lhes prometemos há três décadas. O nosso governo, de forma envergonhada, já mandou a malta emigrar. A única forma de pagar esta crise é com mais 10% do PIB vindo dos emigrantes, (é dinheiro puro). Eu, não acredito em bruxas nem em teorias da conspiração, mas acredito que alguém anda a apertar com eles para lhes mandar o pessoal que precisam para manter as rodas a girar, e o aperto vai aumentar. Porque, o que eles precisam, não é do nosso dinheiro, é de maltinha para trabalhar, mas não é motoristas e trolhas, agora, querem engenheiros e doutores. Nunca, nestas últimas décadas, tivémos muito que fosse nosso. A única coisa que sempre tivémos foi potencial humano, e agora, está na hora de o entregarmos. O pessoal do Leste, ainda vai esperar mais 10 ou 15 anos até levar a traulitada: já andam a organizar Europeus de futebol e tudo. Nós, temos que pagar depressa ou vamos para o buraco.

Quer dizer, os caçadores já mandaram os cães, agora, está na hora de o javali correr antes que leve um tiro...

Pedro Estadão
4 de Maio de 2012
Bar-Le-Duc, Lorena, França

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