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Colunistas

Ainda a EsperançaPor Manuela Fonseca
Barreiro

“Isto é”, pensa Marta, indignada “as ruínas em que a puseram: edifícios esventrados, locomotivas e outros veículos de tracção aos bocados, qualquer coisa semelhante a uma guerra que passou por ali, na danificação do Património do Barreiro e da História recente do País.”

6 min de leitura
Ainda a Esperança Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Os dias incomodativos, aflitivos de uma nova recidiva: o desespero, os pensamentos – ou desejos – desconchavados para quem tanto quer à vida, o apoio, cada vez maior dos que a amam, presencialmente ou mais afastados.

O interesse pela área cultural, pelas belas sopas feitas pelo marido, pelas coisas que os filhos fazem, pelos telefonemas recebidos, pelo que a assistente, com graça, lhe diz – ou, recordando a sua origem alentejana, “lhe vai dizendo” – distraem Marta, ainda que com dificuldade.

A falta de tacto de um Cirurgião, na referência ao seu estado de saúde, numa consulta – a que aderiu depois da indicação da Oncologista –, em hospital do Serviço Nacional de Saúde, colocou-a sem alternativa, quase alheada de vontade de viver como a Oncologista sempre lhe tem dito, e ela, quase sem esforço, depois do inicial, cumpre: “Um dia de cada vez”.
Até a escrita ficou, alguns dias, para trás e a leitura tornou-se obsessiva em assuntos na vertente da Saúde, como se soubesse alguma coisa de contexto tão diferente das suas competências. Voltou para ela porque o sono nocturno quase se foi, por diversas semanas.

E lá zurze, mais uma vez, os incompetentes que têm posto o País – uma região que podia ser um modelo de bem-estar dos portugueses e de Turismo Europeu e quase voltou, salvas as devidas diferenças, cada vez mais estreitas, aliás, no que foi durante séculos.
Vê um Portugal desordenado, pobre, os lucros cada vez maiores para quem já assim os possuía; não se conforma com as pessoas, desempregadas, em falta de trabalho a qualquer momento, semelhante a uma onda maldosa, seja qual for a idade e o estatuto social e cultural dos que são banidos de actividades, produtivas e dignas, assim como de salários.

Entretanto, uns parolos, no cínico fingimento de governar o que não governaram, o País cada vez mais exaurido e afastado das promessas feitas, em tempo eleitoral bem recente.
A doença, felizmente não lhe tira a lucidez: se os que para isso foram eleitos não sabem gerir nem contas públicas, nem apoio na saúde, na habitação, escolar, da criança mais pequena ao aluno mais sénior do Ensino Superior, asneiras sobre asneires, pobreza sobre pobreza, como numa escada (e escala) sem fim, que seja, uma vez na vida, humilde: alguém que o represente diga, publicamente, o que, todos os que temos como desígnio o Dê do Programa do MFA (que saudades!), o do Desenvolvimento, sabemos: não conseguem conduzir os destinos da maioria, bem magoada, financeiramente sufocada, exaurida, tantas vezes desesperada.
Peçam, em seguida, desculpa por tanto dislate e vão-se embora; não roubem mais vidas, esperança, dignidade, valor. Deixem um pouco de esperança aos Portugueses!

E nem quis ver o escandaloso estado de paredes a ruir de antigas componentes do Caminho-de-Ferro, onde o pai, os dois avós, um bisavô e um trisavô foram maquinistas; que vergonha ligar a televisão e observar o vergonhoso estado-de-sítio a que a CP dos comboios (de passageiros, de mercadorias), cheios, décadas atrás, chegou.
“Isto é”, pensa Marta, indignada “as ruínas em que a puseram: edifícios esventrados, locomotivas e outros veículos de tracção aos bocados, qualquer coisa semelhante a uma guerra que passou por ali, na danificação do Património do Barreiro e da História recente do País.”

Como se tivesse sido alguma malfeitoria tentar deixar a memória do passado recente de milhares de trabalhadores.
Atende um telefonema, através do aparelho fixo:
– Marta, que bom, vi a tua mensagem! Ainda bem que esse especialista te abriu um caminho de algo novo na conservação da tua vida!
– Obrigada, “Zelinha”, aguardemos. Confesso-te que estou com um nadinha mais de esperança.

Não queiras saber a elevação moral e profissional no hospital novo de Cascais! Afinal ainda pagamos para um Serviço Público de Saúde como aquele! Por onde tenho passado, fora uma ou outra excepção, tem sido, felizmente, assim.
E o que havia de ter-me acontecido para “gozar” a aposentação: a Unidade de Oncologia daqui ser a minha segunda casa! Ainda bem que posso dizer isto.

– Não quero cansar-te mais, Marta. Quando e se precisares, é só dizeres-me, bem o sabes.
As duas antigas meninas da Rua Dr. António José de Almeida despedem-se com a habitual cordialidade.
– Sim, querida, obrigada. Até á próxima. E que eu veja os teus netos nas suas artes!

Marta liga o computador e abre uma mensagem, na confirmação do pouco de esperança que sente pela graça de uma mensagem informática de uma amiga e companheira na Universidade da Terceira Idade do Barreiro que sabe o que ela sente em relação ao futebol e que diz assim:

“Olá, fiquei feliz por ir iniciar um novo campeonato. Há jogos difíceis e nem sempre estamos no lugar da classificação que desejamos, mas o importante é chegar ao fim do campeonato dentro da primeira divisão.
Conte com a minha arbitragem incondicional.
Um grande beijinho.” (1)

Ri-se por aquela se considerar juíza de partida e, ao mesmo tempo, jogadora…

Sem sair da frente do ecrã, a Internet permite-lhe a leitura do interessante texto “Ecce Homo Modernus” de Luís Rainha do qual retém: “Todos os estios, produtores e consumidores de notícias precisam de refrigerar a modorra dos dias revestidos a protector solar e cerveja morna. E tratam de criar não-eventos e celebridades instantâneas como Cecilia Giménez, a octogenária que transfigurou um feio e banal ‘Ecce Homo’ algures na parvónia espanhola.” (2)
(Quando se finge não haver muito para fazer, descobre-se disparate; quanto às populações, que se vão desembaraçando. E que se descubra mais futilidades em vez delas – a paleta nos olhos é confortável para os que querem continuar a usá-la.)
A ver se ela e o seu povo, todos os povos, mantêm a Esperança em melhores tempos. Ainda a Esperança. A que os atletas Paralímpicos trazem, agora mesmo.

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos.

Referências
(1) Fátima Domingos em mensagem informática para a autora em 29/8/1912.
(2) Luís Rainha, “Ecce Homo Modernus”, http://www.pt/opiniao/ecce-homo-modernus, consultado em 30/8/2012.

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