A tradição já não é o que era! - BarreiroPor Jorge Fagundes
“Assim, picada por picada, antes uma das melgas barreirenses, não é?”

Por Jornal Rostos
Esta manhã, aproveitando o sol primaveril, fui dar uma volta e, numa das esplanadas junto ao Mercado 1º. de Maio, lá estava o meu velho colega da Alfredo da Silva.
Assim que me vislumbrou, convidou-me a sentar-me à sua mesa.
“Então, como tens passado? Há muito tempo que não te via. Não me digas que foste, de novo, à Madeira?”
“Bom dia! Não tenho passado por estes lados, mas não saí do Barreiro. E, idas à Madeira, como se não bastassem os cortes que o fisco nos está fazendo, logo menos possibilidades financeiras, para além das pragas do costume, temos agora a picada do mosquito!”
“Assim, picada por picada, antes uma das melgas barreirenses, não é?”
“Mais ou menos. E tu, o que tens feito?”
“O normal. Ler, escrever, passear. Ou seja: tento usufruir o melhor que posso, agora que deixei de ser velho e passei a ser senior, o tempo que me resta, mais a minha companheira de toda uma vida!”
“Ainda tens essa sorte! Mas, agora reparo: estás a desenhar o quê?”
“Como sabes, em casa dos meus pais, aliás como era na dos teus, por época do Natal , armava-se o Presépio, tradição que mantive ao longo dos anos”
“Sim, bem me lembro. Eu também continuo essa tradição herdada dos meus antepassados”.
“ Pois é! Como consta, o primeiro Presépio terá sido uma idéia de S. Francisco de Assis para dar a entender aos camponeses da época o nascimento de Jesus. E, nesse dito Presépio, além das figuras, talvez modeladas em barro, do Menino, da Virgem Maria e de S. José, pespegou lá um burro e uma vaca em carne e osso”.
“É verdade. Mas isso foi no século treze. Mais tarde, vulgarizou-se a montagem de Presépios, e, em cada um deles, foram surgindo novas figuras, como as dos Reis Magos, que segundo a tradição, se chamavam Baltazar, Belchior e Gaspar”.
“Dizes bem! Nos nossos Presépios sempre estiveram, em destaque essas figuras. Mas....”
“Mas, o quê?”
“ Os tempos mudam-se e as tradições também. Daí o meu desenho.”
“Agora reparo: tiraste o burro, a vaca e um dos Reis Magos”.
“Verdade, verdadinha. Para utilizar um termo muito em voga, tenho de refundar o meu Presépio antes de o tornar a montar”.
“Essa agora! Uma refundação do Presépio?”
“Tem de ser. Segundo li há pouco, o Papa veio dizer que o burro e a vaca não estavam no Presépio. Portanto, vou tirá-los de lá”.
“Cá por mim, vou deixá-los ficar. Mas porque vais tirar um dos Reis Magos? A tradição não diz que eram três?”
“Eram, eram. Mas, depois de muito meditar, cheguei à conclusão que eram só dois!”
“Mas, como?”
“Ora, segundo sempre constou, esses Reis Magos vieram trazer presentes ao Deus-Menino: ouro, incenso e mirra, não é?”
“É, é. Continua”.
“Entende bem: vieram trazer presentes, não vieram tirar nada, pois não?”
“ Não, não vieram”.
“Mas neste nosso recanto à beira mar plantado, algo corre mal, pois um senhor, curiosamente chamado Gaspar, em vez do seu homónimo Rei Mago, em vez de nos dar o que quer que seja, está-nos a tirar o mais que pode. Assim sendo, como Rei Mago dos tempos modernos de austeridade, não tem lugar no meu Presépio! Vou tirá-lo!”
Jorge Fagundes













