Passagem de AnoPor Manuela Fonseca
Barreiro
– Não é caridadezinha, João; é solidariedade; se alguém não come como deve ser, ao menos algumas vezes, nem sabe o que isso é!

Por Jornal Rostos
João Mendes não está no Cais das Colunas – é muito tarde e a primeira noite de 2013 é desagradável –, como costuma fazer antes de chegar à Estação do Sul e Sueste, no fim da tarde.
É madrugada – faltam uns minutos para o barco chegar e apanhá-lo – o clima e a hora só lhe permitem recordar Carlos Pinhão, como se estivesse a fazê-lo no referido Cais, ali tão perto.
Esse mestre da escrita, que depressa nos deixou, e os seus textos “A Duas Colunas”, no jornal “A Bola”, onde, embora sportinguista, aprendeu a ler; é mais novo cinco anos do que o diário, menos editado noutros tempos.
Homem realizado profissionalmente, continua a trabalhar como em jovem, numa empresa, a mesma de sempre, que sofre os abanões da crise mas, ligada ao sector de exportações, tem conseguido manter os trabalhadores nos seus postos.
Vive sozinho há muitos anos. Acende um cigarro (ri-se para ele próprio porque, muito poupado, não consegue deixar aquela companhia que sabe ser-lhe prejudicial mas que tanto aprecia) e, imagina ver o navio que o transportará, quase a chegar, aliás.
Feliz no emprego, nem tanto na vida privada – dois casamentos com falta de êxito e, sente-o agora, pouco afecto das três filhas que também não o receberam como merecem. Nem os netos.
Sob o ponto de vista das vivências colectivas dos portugueses, ele, que deu a volta ao Mundo, filho de um operário barreirense que a ditadura prendeu e torturou, pouca importância dá aos nossos políticos que, para ele, radical nos juízos, “são quase todos iguais, uns bacocos, uma m…” mas a situação económica e financeira do País preocupa-o há anos e, como especialista da primeira área, sabe, dos estudos e da prática, que se poderia e deveria ter mais e melhor pela prosperidade da população, ao invés do escândalo de dinheiros desviados do erário que, há décadas, acontece.
Não se conforma com o que vê em Lisboa, retrato de Portugal: cada vez mais pobres, pessoas sem o mínimo de condições, ao menos de sobrevivência, com fome, roupas andrajosas, pelas ruas que lhes funcionam como casa.
Dirige-se para o “vapor”, a velha palavra que os pais lhe ensinaram em garoto. Entra e senta-se. Pouco dado a expressar sentimentos, a boca rasga-se num sorriso de boa disposição: os comensais de há umas horas, pelo menos por algumas, foram felizes!
Sempre achou – e não mudou de entendimento – que não é só no Natal e no Ano Novo que se tem direito à comida, à dignidade da Vida. Porém, num almoço com companheiros da empresa, renovado, felizmente, com a chegada de gente nova, reconheceu que uma colega, pela idade das herdeiras, tinha razão ao exclamar:
– Não é caridadezinha, João; é solidariedade; se alguém não come como deve ser, ao menos algumas vezes, nem sabe o que isso é!
Pedro Marujo, ainda rapaz, excelente pessoa e quadro muito competente, achou, naquele início de tarde, contas feitas, que o grupo de dez mulheres e homens que estava a tomar a refeição tinha condições para tratar de dois assuntos cada um, no sentido da chegada, mais alegre, a 2013 a umas três centenas de pessoas.
Em Alcântara não foi difícil saber quem eram os muito necessitados, arranjar a sede de uma instituição – ficaram agradavelmente surpreendidos pela utilização da mesma a título gracioso, a colaboração da Sociedade de Cultura e Recreio para uma noite diferente.
Foi gente de todas as idades, tão gente como a outra e abandonada à sua (triste) sorte, com se vivesse em século recuado, num Portugal que se considera Desenvolvido e numa Europa que se arroga de Civilizada.
Trinta e um de Dezembro chegado, não faltaram conforto, roupa, calçado, brinquedos. A refeição, esmerada e suculenta – a cargo de que uma empresa de serviço de prestação alimentar –, incluiu, no final, doces e fruta da época, café, alguns licores. Houve prendas para todos.
Brindou-se a melhor vida, à passagem dos (des)governantes a pessoas necessitadas, durante três dias, para verem como é essa situação. Até a sua queda foi desejada em voz alta, no entendimento de que não faltam sábios para gerir o País, que os aguarda, já impaciente.
Seguiram-se música, vozes, mais ou menos afinadas: alguns artistas, ditos amadores, coloriram o momento. João Mendes até se ouviu a cantar o fado, o que nunca fizera em público. Mas, naquele momento mágico, a Lisboa que tanto ama, talvez terra do fado como nenhuma, escutou-lhe a voz, emocionada e bem treinada. Um baile terminou a (quase) festa em excelente disposição.
O barco pára, João Mendes sai, acende outro cigarro, no caminho, curto, a pé, até ao automóvel que o levará para bem perto. Na pequena viagem, sente uma grande alegria, um desejo de continuar com os colegas a fazer o bem. E, situação talvez mais difícil, aproximar-se das filhas e dos netos. Estará a transformar-se num Pai Natal?
Já na rua, à porta de casa, pensa: “E a minha Junta de Freguesia da Verderena, coitada, fez algum mal a esses quaisquer-coisas para sair do mapa administrativo do Concelho como se encontra agora?”
Manuela Fonseca













