$entimentosPor Manuela Fonseca
Barreiro
O desempregado (?) guarda o biberão, encosta o (a) pequenito (a) ao ombro e sorri. A observadora também.

Por Jornal Rostos
Frio de Janeiro. Na parte externa do Instituto do Emprego e Formação Profissional, sentado numa reentrância da parede, estreita e em paralelepípedo, um homem, ainda jovem, brinca com o bebé numa cadeirinha.
Levanta-se com alguma dificuldade – coxeia –, tira a criança, completamente abrigada, e pega-lhe ao colo, com desvelo. Faz-lhe meiguices e fala muito com ela. Talvez uns cinco minutos depois, volta a pousá-la e senta-se naquele improvisado e incomodativo banco.
No passeio em frente, duas mulheres, vindas das compras, o que os sacos que transportam indicam, olham para o quadro vivo – todos os dias encontram pessoas em situações daqueles – e uma não se contém:
– Já o tinha visto, na ida, D. Angelina; está aqui há muito tempo, com a “linda temperatura e o belo conforto” que tem! E a criança: que mal teria feito a Deus para o pai estar, com certeza, desempregado?
A outra secunda-a e comenta:
– Coitado! Triste a vida dos pobres, com estes marotos lá de cima a massacrá-los a toda a hora! Olhe, D. Laura, aflição de nós todos, os que não temos dinheiro!
– Muitos já ficaram assim desde que esses mentirosos estão no “poleiro”! Nós, portugueses, temos cá uma sorte! Mas que coisa! Não merecemos isto, não!
E a primeira, veemente:
– Com o meu voto não chegaram eles ao “tacho”, não! Ainda são piores do que os outros…
A interlocutora interrompe-a:
– O que é difícil! A família e eu também não lhes demos a mão!
Desculpe tê-la interrompido.
Despedem-se e seguem caminho, as habitações ali perto.
O homem continua, bonita e pacientemente, a falar com o bebé. Levanta-se de novo, volta a tirá-lo do lugar e, devagar, vai buscar à bolsa traseira da cadeirinha, amarela, um biberão que, em pé, não vá o diabo tecê-las, dá à criança.
A observadora – que retém o momento e o acha sublime – comove-se e lamenta não haver ninguém ligado à Comunicação Social e à Fotografia que passe ali e peça autorização para fotografar tão bela moldura humana, apesar do frio, apesar de (sabe lá ela o quê? Mas calcula.) … Entende perceber amor, ternura, esperança no homem que não terá sido ajudado pela vida e ali está, certamente a combater o infortúnio, certamente a lutar para que ao filho / à filha não faltem nem o pão, nem a esperança, nem o futuro.
O presente está comprometido por uns quaisquer que, sem o mínimo de conhecimentos acerca do Povo Português, não têm por ele as mais pequenas consideração e responsabilidade, o menor respeito. Como se tivessem chegado de estranha e boçal galáxia – ignorantes adoradores do cifrão, despidos de sentimentos; ao mesmo tempo que os detesta, os tolos até lhe fazem impressão!
Talvez o rapaz não conheça a narrativa tradicional que refere o ganancioso Rei Midas mas sabe que “eles”, “estes”, não vão fazê-lo sofrer muito mais, assim como acontecerá com milhões de compatriotas; está na hora, a onda que “os” varrerá aproxima-se e tem a consciência de que é cada vez maior.
Ele, a criança, a família, Portugal têm que aguentar só mais um bocadinho; os Andeiros e os Miguéis de Vasconcelos nunca ficaram, já o avô e a escola lho disseram; o velho País manteve-se e manter-se-á!
O desempregado (?) guarda o biberão, encosta o (a) pequenito (a) ao ombro e sorri. A observadora também.
Manuela Fonseca













