Os suspeitos do costumePor Jorge Fagundes
Barreiro
“Como assim?”
“Ainda que não obrigando a freguesia do Barreiro a regressar a Alhos Vedros, vai a mesma geminar-se ao Lavradio!”

Por Jornal Rostos
A meio da manhã, aproveitando o sol que fazia, lá encontrei o meu velho amigo da Alfredo da Silva sentado numa das esplanadas junto ao Mercado Municipal 1º. de Maio.
“Bom dia, como estás?”
“Assim, assim. Apesar do muito frio que tem feito, hoje até não se está mal aqui.”
“Vejo que tens estado a escrever. Sobre quê?”
“Apenas algumas reflexões sobre este nosso Barreiro, e não só.”
“Não me digas que, aproveitando o tempo livre que agora tens, vais arriscar uma nova monografia sobre o Barreiro?”
“Nada disso. Embora reconheça que a mesma nos faz falta, não me acho com competência suficiente para me aventurar. São só uns ligeiros apontamentos, muito baseados em recordações, aliás comuns aos dois.”
“Vá lá, desembucha!”
“Estive a dar uma vista de olhos às muitas fotografias do Barreiro que vou guardando, e nem advinhas qual foi a primeira que encontrei!”
“Sei lá, talvez uma do grande nevão em Fevereiro de 1954?”
“Não, não. Foi uma da GNR, a cavalo, fazendo exercícios na zona de Alburrica. Lembras-te disso?”
“Se me lembro! E, no regresso, lá vinham aqueles simpáticos cachorros especialistas em matar os gatos que encontravam no caminho!”
“É verdade! Mas, olhando essa velha foto, sabes o que me ocorreu?”
“O que foi?”
“Imaginei como seriam agora esses exercícios, bem comandados pelo célebre capitão Matos, a quem, à socapa, apelidávamos de olho de vidro devido ao monóculo que usava.Hoje, a sua voz de comando, por actualização, seria assim: atenção, soldados! Cavalos a passo, a troika e a galope!”
“Essa é mesmo tua. E que mais?”
“Como bem o sabes, embora a maioria dos barreirenses o desconheça, em 12 de Fevereiro de 1487, o nosso rei D. João II, por sinal estando em Santarém, ao criar a paróquia de Santa Cruz deu origem a uma nova freguesia: a do Barreiro. Curiosamente, então desanexada de Alhos Vedros. Ora, mais de cinco séculos depois, não é que, como consta, por imposição da troika, que mais ou menos nos governa, a decisão real foi desautorizada?”
“Como assim?”
“Ainda que não obrigando a freguesia do Barreiro a regressar a Alhos Vedros, vai a mesma geminar-se ao Lavradio!”
“Bem o dizes. Tens mais alguma reflexão?”
“Por acaso, até tenho. Nesse mesmo ano de 1487, mandou D. João II a Afonso de Paiva e a Pero da Covilhã investigar a localização do mítico reino cristão do Prestes João, que, ora se diz, se localizaria na actual Etiópia. Afonso de Paiva, que entretanto se separara de Pero da Covilhã, este com a missão de fazer um reconhecimento da Índia, não completou o mandado real, por ter falecido. Mais tarde, tê-lo-á feito o Pero da Covilhã, de cujos relatos se aproveitou Francisco Álvares para os incluir no seu livro Verdadeira Informação das Terras de Prestes João das Índias.”
“Vejo que, como é usual, bem te documentaste. Mas, para além da coincidência do ano de 1487, descobriste mais alguma coisa?”
“Descobrir, descobrir, não. Só imaginei!”
“O quê?”
“Que, sendo etíope um dos empertigados senhores da troika, com direito, vá lá saber-se porquê, a constantes passagens pelas nossas televisões, o mesmo não será descendente do Prestes João, agora com a incumbência de descobrir Portugal!”
“Tens cada uma. E, nas tuas reflexões, ficaste por aqui?”
“Por acaso, só mais uma. Lembraste do filme Casablanca, uma verdadeira pérola?”
“Se me lembro! Ainda a semana passada o voltei a rever!”
“Também eu. E, em pura imaginação, dei-lhe uma pequena volta, ou melhor, coloquei uma das suas cenas no Portugal dos nossos dias.”
“Qual, qual?”
“Sempre que havia qualquer problema mais grave, o oficial francês que comandava a polícia local, dava sempre a mesma ordem: prendam os suspeitos do costume.”
“É verdade! Mas o que tem isso a ver com Portugal?”
“Não é que me deu para substituir o oficial francês pelo nosso ministro das Finanças"!”
“Como?”
“Ora, ora. Sempre que nota a falta de dinheiro nos cofres estatais, o nosso ministro, tal como o oficial francês, mas com a substituição de uma só palavra, logo ordena: lixem os suspeitos do costume!”
Jorge Fagundes













