A sina (conto)Por Jorge Fagundes
Barreiro
“Usa-se, sim, meus senhores. Pelas ciganas, devo ser a única do Barreiro e arredores que o sabe fazer. Mas há muitas, não ciganas, que ganham fortunas a ler as sinas nos seus consultórios. E até vão à televisão!”
“E acerta?”
“Como nas sondagens para as eleições, a minha margem de erro anda nos três por cento. Muito melhor do que aquele senhor que dizem ser ministro das Finanças! Posso ler-vos a sina?”

Por Jornal Rostos
Estava, esta manhã, no café habitual, a ler tranquilamente o jornal e a beber a bica, quando alguém se acercou da minha mesa e exclamou:
“Até que enfim que encontro um conhecido!”
Olhei para quem assim me interpelava e...nada.
“Não me digas que já não te lembras de mim?”
“É verdade. Não o estou a reconhecer”.
“Sou o Chico Marques. Andamos juntos na Escola Nova e na Alfredo da Silva!”
E, de repente, reconheci-o. Demos um forte abraço e ali ficamos a conversar.
Assim me contou que estivera em Angola, no princípio da guerra colonial, como furriel miliciano. E por ali ficara por ter conhecida uma portuguesa, minhota, com quem se casou. Casamento muito feliz, embora sem filhos, acabado há cinco anos quando a morte os separou. Regressou a Portugal, e esteve a viver no Minho, na terra da sua falecida mulher, e, há pouco tempo, resolveu regressar ao Barreiro, para a casa onde nasceu, ali perto da Senhora do Rosário, herdada de seus pais.
Enquanto a nossa conversa prosseguia, entrou no café uma mulher de meia idade, faces tisnadas por muitos sóis, e vestida como é usual as ciganas fazê-lo.
Acercou-se da mesa e propôs-se ler-nos a sina.
“A sina? Mas isso ainda se usa?.
“Usa-se, sim, meus senhores. Pelas ciganas, devo ser a única do Barreiro e arredores que o sabe fazer. Mas há muitas, não ciganas, que ganham fortunas a ler as sinas nos seus consultórios. E até vão à televisão!”
“E acerta?”
“Como nas sondagens para as eleições, a minha margem de erro anda nos três por cento. Muito melhor do que aquele senhor que dizem ser ministro das Finanças! Posso ler-vos a sina?”
“Não acredito nessas coisas. Obrigado, mas não quero”, disse-lhe eu.
“Mas, meus senhores, apenas vos levo uns modestos cinco euros. Faz de conta que foram à consulta ao médico de família. E há uma coisa que ainda não vos disse!”
“Então, o que é?”, perguntámos ao mesmo tempo.
“É caso único. Leio a sina em verso!”
“Em verso? Está bem, leia lá a minha sina". Mão esquerda ou mão direita? perguntou o meu reencontrado amigo.
“Nos homens é na mão direita”.
E o meu amigo lá lhe estendeu a mão, mais uma notinha de cinco euros.
“Mau, mau!!!! Não gosto nada do que estou a ver! Bons dias e adeus, meus senhores”disse a cigana, deixando a nota dos euros em cima da nossa mesa.
“Essa agora! Adeus porquê? De repente perdeu as suas qualidades? Depois de tanta insistência, tem mesmo de me ler a sina!”
“Se insiste, eu leio. Mas depois não se queixe da cigana”.
“Leia, mulher, leia”
E a cigana leu, em verso, assim:
“Na palma da sua mão
vejo o destino traçado:
vai morrer na solidão,
amando, sem ser amado!”
E, voltando a guardar a nota dos cinco euros, abalou à pressa.
Curiosamente, o Chico Marques pareceu-me ter ficado abalado.
“Então, que se passa? Estás pálido!”
“Nem posso acreditar! Estava a pensar em refazer a minha vida, e até já tinha alguém debaixo de olho. Será que a cigana acertou?”
Jorge Fagundes













