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Uma Delícia: CORUTIBPor Manuela Fonseca
Barreiro

Acompanho o CORUTIB dentro das parcas possibilidades que a Natureza ainda não me roubou, inclusive num ou noutro ensaio. Admiro estes cantores, na maioria seniores: a habilidade, seriedade, interacção com os pupilos e o público da Maestrina, Dr.ª Olga Panchenko, o repertório que escolhe, plurilingue e multifacetado, a compenetração de todo o grande grupo de trabalho (mormente dos chefes de naipe) encantam-me.

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Uma Delícia: CORUTIB Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Era a segunda metade da década de cinquenta; nos dias de folga do meu pai, os “semanais”, se eu não tinha aulas e não íamos a nenhum lado, ele contava-me histórias e perguntava-me pelas que estavam nos livros que me oferecia, com esforço financeiro não verbalizado, para que a sua menina tivesse tanto amor às Letras como ele.
Ambos fomos raposas, lobos, cordeiros, leões, burros, outras personagens de fábulas de Esopo e La Fontaine, heróis das “Lendas da Nossa Terra” de Gentil Marques. (Guardo, cheia de saudades do meu progenitor, as obras que as contêm.)
Habituara-se, nas ausências profissionais, a cozinhar, numa panela própria para funcionar com o vapor da locomotiva, e, posteriormente, também aprendeu a fazê-lo no contexto doméstico. Mas, para além das refeições, colaborava muito com a minha mãe em outros afazeres da casa cujos saberes me transmitiam.
Assim, havia tempo para nos sentarmos na casa de jantar e ele tocar bandolim, aprendido, na infância, na Sociedade Democrática União Barreirense, “Os “Franceses”, o que deliciava os três.
Bem tentou Cristiano da Fonseca Júnior que eu soubesse música. Amante de Apolo, apesar de ter assistido a muitos bailados, concertos, algumas óperas, das aulas, excelentes, do docente de Canto Coral no Liceu de Setúbal, igualmente cantor, Américo Vieira, precocemente desaparecido, não fui bafejada com a inspiração de reproduzir uma única nota (agradou-me, imagine-se, saber que o mesmo aconteceu com Freud e “Che”). Mazinha, dou pelas fífias dos intérpretes.
O CORUTIB entrou na minha vida de forma indirecta e directa, respectivamente: pela entrada do meu marido nele, e com a ligação que tenho à Universidade da Terceira Idade do Barreiro que a Instituição mantém, de forma solidária, com a minha pessoa.
Mais dois motivos para o meu interesse: ouvir pessoas cujas idades, na maioria, infirmam o preconceito, antiplatónico, reaccionário, de que já nada conseguiriam aprender; também, no amor ao mosaico cultural em que, pouco a pouco, apesar das vicissitudes, Portugal se transforma, assistir à regência de luso-ucraniana que, no País de origem, muito deveria ter aprendido, em licenciatura estruturada, transmissora e definidora de altas competências (se tinha uma ideia preconcebida acerca de tal formação, acertei nela.)
Acompanho o CORUTIB dentro das parcas possibilidades que a Natureza ainda não me roubou, inclusive num ou noutro ensaio. Admiro estes cantores, na maioria seniores: a habilidade, seriedade, interacção com os pupilos e o público da Maestrina, Dr.ª Olga Panchenko, o repertório que escolhe, plurilingue e multifacetado, a compenetração de todo o grande grupo de trabalho (mormente dos chefes de naipe) encantam-me.
As participações em festividades religiosas, civis, de coros, reconhecimento a individualidades musicais do Concelho e de outras áreas, artísticas ou não, têm feito crescer e engrandecem este coro, o que, claro, se repercute na Cidade.
Até a RTP, no já extinto – talvez não por acaso, devido à utilidade educacional e cívica que tinha – programa “Portugal sem Fronteiras”, deu voz ao CORUTIB e a Olga Panchenko, em Janeiro de dois mil e nove.
Há um ano, num espectáculo solidário para com pessoas desfavorecidas, organizado pela Câmara Municipal do Barreiro, Hélida Pais e a cantora Micaela, efectuado na Casa da Cultura dos Trabalhadores da Quimigal, lá esteve este agrupamento artístico.
(Por razões e vontade alheias à Autarquia e à primeira das senhoras citadas, a receita ainda não foi entregue à Câmara Municipal para a depositar em instituições que apoiam alguns dos cidadãos atrás referidos. Esperemos que o próximo mês, que a cantora, instada a fazê-lo e ouvida publicamente, disse ser a altura da sua entrega, traga o cumprimento da irregularidade que cometeu.)
De mim própria posso dizer que, na tão gentil homenagem-surpresa que a Escola Secundária de Santo André me fez, há três meses, houve também a presença do CORUTIB, o que muito me emocionou, assim como a de todos os que, igualmente, nela e por ela me deram, quase como diria Santo Agostinho, um pouco do seu coração.
CORUTIB: agradecido ao Grupo de Dadores de Sangue do Concelho do Barreiro que, há cerca de seis anos, lhe franqueou as portas (outros já as tinham fechado) para trabalhar muito, cada vez mais, para deliciar o público, para honrar o Barreiro.
(Hipótese: ainda melhor com acompanhamento musical ao vivo? Naturalmente. Como nós o seríamos, com certeza, num Portugal bem gerido.)
Parabéns, CORUTIB! E, sem ofensa para nenhum dos seus intervenientes, um beijo especial a Olga Panchenko que, de uma crença, um projecto, fez uma Obra Emblemática do Barreiro e da sua Universidade.

Manuela Fonseca

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