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A visita (conto)Por Jorge Fagundes
Barreiro

A sua conduta recente é que me obrigou a vir falar-lhe. Descuidadamente, continua a deixar pistas, mas estas, agora, são muito preocupantes. Por isso, e antes que cometa alguma loucura, vim dizer-lhe que o nosso Departamento da especialidade está a estudar as características dessa pedra tão dura. E vai, muito melhor do que o fazem aquelas comissões da Assembleia da República, descobrir algum espaço suficientemente permeável à entrada de uma das minhas setas. Paciência, meu caro senhor, mas no máximo de seis meses terá a sua resposta.

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A visita (conto) Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Hoje, quando ao fim da manhã, o Dr. Silva regressava a casa, estava um cavalheiro à sua porta.
Dirigiu-se-lhe dizendo que lhe queria falar, e pediu desculpa por não ter feito marcação prévia.
Supondo tratar-se de um eventual cliente, o Dr. Silva disse-lhe que estava reformado, pelo que deveria procurar um outro Advogado. Mas o cavalheiro em causa adiantou que não se tratava de assunto jurídico, mas sim particular. E, ao ouvido do Dr. Silva, adiantou-lhe um nome feminino.
O Dr. Silva, corado e pálido em simultâneo, mandou-o entrar para a sala, enquanto reparava que o fulano era bem constituído fisicamente, de idade imperceptível, e que vestia, e calçava, muito bem: fato, camisa, gravata e sapatos daquela marca italiana que o nosso ex-Primeiro Ministro usava.
Confortavelmente instalado, apresentou-se: “o meu nome é Cupido e vim falar-lhe em virtude de um problema que muito o apoquenta e a mim também. E desde já lhe adianto que tem sido raríssimo, ao longo dos séculos da minha existência, assumir corpo humano para vir falar com um deles”.
“Mas...mas... a que devo a sua visita?”
“Meu caro senhor, há meses que o seguimos e tudo sabemos a seu respeito”.
“Alto lá! Seguem-me, porquê? São do SIS?”
“Meu caro senhor, desde que os meus pais, os deuses Vénus e Marte, me encarregaram, através das minhas certeiras setas, de despertar o amor e a paixão entre os humanos, que todos eles se encontram referenciados”.
“Mas como chegou até mim, e a que propósito?”
“Meu caro senhor, nos últimos meses tem deixado tantas pistas que até aqueles policiais, que não encontraram solução para o caso da menina inglesa desaparecida no Algarve, tinham tido sucesso consigo”.
“Mesmo assim, não percebo o motivo da sua visita”.
“Meu caro senhor, aconteceu um caso extraordinário em relação a si e a...”(o nome agora foi dito em voz alta).
“Caso extraordinário? Qual?”
“Meu caro senhor, cruzámos os vossos dados pessoais e dava tudo tão certo, tão certo, que eu até disse, à maneira plebeia: é canja!”
“E então? Dados pessoais? A Comissão Nacional respectiva tem conhecimento desses cruzamentos?”
“Não tem, não, mas asseguro-lhe que, para nós, são absolutamente confidenciais. Mas, quanto ao seu caso, não nos apercebemos que.....(de novo o nome), aparentemente com um bom e bonito coração, tem o mesmo envolvido por uma camada, finíssima, é certo, mas impenetrável, de pedra dura. Tão dura, tão dura, que as minhas setas, das melhores do mercado, made in China, não conseguiram atravessá-lo!”
“Mas que desplante, senhor Cupido. E eu que me tenho interrogado, dia após dia, noite após noite, sobre o motivo do meu falhanço que...afinal é seu!”
“Desplante não, meu caro senhor. A sua conduta recente é que me obrigou a vir falar-lhe. Descuidadamente, continua a deixar pistas, mas estas, agora, são muito preocupantes. Por isso, e antes que cometa alguma loucura, vim dizer-lhe que o nosso Departamento da especialidade está a estudar as características dessa pedra tão dura. E vai, muito melhor do que o fazem aquelas comissões da Assembleia da República, descobrir algum espaço suficientemente permeável à entrada de uma das minhas setas. Paciência, meu caro senhor, mas no máximo de seis meses terá a sua resposta. E não se esqueça: coração atingido por uma das minhas setas é coração desperto para o amor e para a paixão. Tenha um bom resto de dia!”
E, sem sequer dar tempo ao Dr. Silva para o acompanhar até a porta, levantou-se e abalou.
E o Dr. Silva, naturalmente perplexo, deu conta que nem sequer o Cupido abriu a porta, pois se limitou, simplesmente, a atravessá-la!!!!!!!!!!

Jorge Fagundes

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