Reflexão de uma Pasta DentífricaPor Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
As minhas irmãs que desempenham funções idênticas às minhas, vá lá, com uma ou outra a menos, estão, no momento, em melhores condições do que eu: são mais baratas, o que alivia os orçamentos da “crise” que nos inventaram (e não demos por ela até nos bater com toda a força).
Essas vendem-se num ápice, em médias e grandes superfícies e algumas, ainda, em antigas mercearias, fornecedoras de géneros quase esquecidos, como produtos portugueses, bem saudáveis.
Claro que os meus fins são mais específicos do que a maioria das pessoas tem necessidade mas isso não significa que o laboratório que me produz, algures em França (não o doce País das imagens e textos do Romantismo mas o actual, que se mostra ao Mundo através de um conjunto de nações, bem visíveis em qualquer competição desportiva. Felizmente. O que de positivo já fizemos na multiculturalidade!), não me respeite e mude, a bel-prazer, as regras do meu preço.
Talvez com mostras muito mais pro-activas do que as feitas até agora se fizesse olhar mais atentamente para os meus benefícios para a saúde; assim, interrogo-me: “Qual é o interesse nisso? Os donos da empresa que me traz à luz ficam mais cheios de euros se eu não estiver ao lado da minha gémea, uma de nós entregue graciosamente?”
Suponho que o laboratório deveria ser mais cuidadoso na comunicação (empresarial, informática, social) para se saber mais acerca das vantagens de produtos farmacêuticos que parecem envergonhados pelo convívio com outros, maiores e mais caros, junto a eles.
Estes estabelecimentos – as primeiras casas de saúde ao pé da nossa porta – não têm, no momento, como atrás indiquei, duas pastas pelo preço de uma. Fomos substituídas por embalagem única com mais um pouco de material, menos fácil para o manuseamento dos doentes que nos procuram, sob indicação dos médicos-dentistas.
Até há pouco, era muito razoável a satisfação dos clientes: ganhavam os que de mim / de nós precisam, mormente os portadores de problemas periodontais, e os trabalhadores das farmácias, dos menos aos mais diferenciados.
Ou será que, não por acaso, uma pasta dentífrica mal divulgada, não referida nos canais televisivos mais visitados, fica por comprar e, claro, proporcionar alívio a quem dela precisa?
Ou a manutenção da salubridade dentária é só para as gentes do Norte da Europa, que “as do Sul, pouco trabalhadoras, pouco informadas, prescindem delas” – pensarão e dirão alguns politiqueiros, desengonçados e desavergonhados. E o bem-estar continua a ser coisa de somenos no “País em Inho” (obrigada, Manuel Alegre), dito democrático, já há décadas? Que vergonha para quem gere, pessimamente, Portugal?
Ou os avisos e saídas em manifestações de farmacêuticos e técnicos não sensibilizam alguns laboratórios para menos ganância, menos lucros fabulosos? Abrandem-nos um pouco: lembrem-se das populações com necessidades de tratamentos a que não podem – e deviam, obviamente – ter acesso!
Se é por temerem viver na rua, como o outro bacoco, deixem-se disso: ficam ricos à mesma, Reis Midas fora do tempo! (até me enjoam!)
Não se envergonham – laboratórios não têm sentimentos, é verdade – de que estão a obrigar a velha farmácia-oficina de competência, sabedoria, acolhimento e boa vizinhança a ser correia de transmissão do que fabricam, em multinacionais, vocês, que nadam, cada vez mais, em notas de banco?
Deixem os farmacêuticos, adjuntos, técnicos, trabalhar como sabem: baixem os preços dos medicamentos, não dêem mais canseiras aos depauperados Portugueses e a outros Povos!
(Credo: como não vêm comprar-me, até me estava a dar o sono mas não quero cair da prateleira; vou abrir mais os olhos – só a resistência vence os Tios Patinhas e preconceitos contra os menos bafejados, coitados, por quaisquer deusas e, ou, deuses com menos cabecinha.)
E de novo: quero a pasta dentífrica medicinal gémea, ao meu lado! Os utentes, já habituados a levar-nos dessa forma e em condições vantajosas, certamente para todos, excepto para essa entidade adamastónica que já referi, vão dar-nos, de certeza, mais atenção. E comprar-nos.
Os Adamastores não resistem às Ciências: da Natureza, Sociais e Humanas, à Matemática – mais tarde ou mais cedo são vencidos e caem no ridículo (obrigada, Camões), o que lhes é devido.
(Ai, laboratórios farmacêuticos, laboratórios farmacêuticos: anda para aí mais um escândalo mas vou documentar-me para não dizer e pensar asneiras.)
Manuela Fonseca













