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Colunistas

A gata PirolitaPor Jorge Fagundes
Barreiro

Segundo me explicaram, o segredo da receita está no facto do coelho ficar, durante dois dias, embebido em molho de soja, mais rebentos de bambu e um pouco de vinagre de arroz.
E eu, todo vaidoso, a julgar que os olhos maliciosamente amendoados e ternurentos das chinesinhas se deviam ao meu charme latino!!!!

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A gata Pirolita Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Estava eu, esta manhã, entretido a ler as desgraças do dia-a-dia, quando me despertou a atenção uma conversa entre a minha vizinha do lado e a vizinha do andar de cima, cada uma à porta de entrada das suas casas. Como falavam bem alto, e mesmo sem sair da sala (confesso que suspendi a leitura) ouvi este interessante diálogo:
Vizinha do lado: Bom dia, D. Celestina! Por acaso não viu a minha gata Pirolita?
Vizinha de cima: A sua gata? Não, não vi. Porque pergunta?
Vizinha do lado: Fui à Praça, e sem dar por isso, ela saiu de casa, desceu as escadas e abalou porta fora.
Vizinha de cima: Alguém a viu?
Vizinha do lado: Um daqueles velhotes reformados que costuma estar à esquina, a dar milho aos pombos, disse-me ter visto um gato a virar para o lado do Jardim dos Franceses. Pelos dados que me deu, não era um gato, mas sim a minha gatinha.
Vizinha de cima: D. Francisca, já não é a primeira vez que ela foge de casa. Não se lembra quando o meu Marcelino a encontrou na Avenida da Praia? Vai ver que daqui a pouco vai estar a miar à porta de entrado do prédio.
Vizinha do lado: Mas, D. Celestina, isto foi na terça-feira, logo de manhã, e hoje já é sexta. Se calhar foi roubada, ou atropelada por um desses malucos que fazem da Avenida pista de corridas! Coitadinha! Tão bonita, com aquelas malhas castanhas! Tenho tanta pena! Só lhe faltava falar, tão meiga que era!
Nesta altura do campeonato desatei a rir às gargalhadas (por enquanto ainda se não paga imposto por esta ousadia!) e até as lágrimas (indiferentes às malandrices do Orçamento Rectificativo) me saltaram dos olhos, quais torneirinhas mal fechadas.
Acabara de perceber a origem daquele gostoso coelho à moda de Beijing que, na passada quarta-feira (por graça e obra das Nações Unidas, Dia Mundial do Ambiente), os chineses do restaurante me ofereceram. E também comeram, deliciados, com a pompa e circunstância devidas a convidado (para eles) tão ilustre.
Segundo me explicaram, o segredo da receita está no facto do coelho ficar, durante dois dias, embebido em molho de soja, mais rebentos de bambu e um pouco de vinagre de arroz.
E eu, todo vaidoso, a julgar que os olhos maliciosamente amendoados e ternurentos das chinesinhas se deviam ao meu charme latino!!!!

Jorge Fagundes

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