A Ditadura, a Escola, a Isabel Caeiro e EuPor Manuela Fonseca
Barreiro
Longe, longe, embora, por vezes, nestes dois últimos anos, tentes ameaçar que queres pôr a cabeça de fora. Mas tal não vai acontecer porque parecer é muito diferente de ser; basta estudar a diferença

Por Jornal Rostos
(À sóbria e exemplar Isabel)
Segunda metade da década de cinquenta. Na “Escola dos Ferroviários” (assim conhecida por funcionar em parte de um dos edifícios pertencentes à então Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, onde hoje se situa a Galeria Municipal), eu não tinha visto passar um dos primeiros satélites artificiais da Terra, referente ao Programa soviético “Sputnik” porque a professora, que me detestava (sentimento, aliás, recíproco), fez-me sair da sala de aula, de costas para a parede, um dos hábitos dos docentes salazaristas, minutos antes do evento que pusera toda a gente à janela, por esse Mundo fora.
Se a escola e a docente me aborreciam, bem como as fotografias dos não eleitos A&A (António Oliveira e Américo Tomás) e os conteúdos programáticos, depois de tal punição o sacrifício ainda aumentou (houve uma altura em que pensei em atirar-me, devagar, da carteira, fingir que me tinha magoado e seguir logo para casa mas, com a proverbial falta de jeito que tenho, caí mal e estive de cama uns dias, até medicada).
Voltei quando me recompus. Por acaso, em dia de pagamento da quota para a tristemente célebre Mocidade Portuguesa (não há nada de mau que não lembre às ditaduras, de facto): tínhamos de pagar vinte e cinco tostões (dois escudos e meio) para tal nefasta coisa (não quero dizer instituição) de que a professora (dava-me o “carinhoso” epíteto de “peste bubónica”, o que me levou a perguntas em casa o que era isso e à indignação da família, tal a “gentileza” da comparação entre uma doença gravíssima e eu própria, criança de sete anos!) era depositária.
Nem nunca gostei de dívidas, nem tinha levado o dinheiro e fiquei bastante aflita quando vi todas as colegas com a importância citada, em fila, para dar o dinheiro à senhora. Foi um momento embaraçoso. A Isabel Caeiro era a última e cheguei-me a ela com um segredo:
– Isabel, não tenho dinheiro, dá-me o teu e pago-te amanhã!
Estupefacta (ainda lhe estou a ver o rosto), a (para sempre) minha amiga, ouviu e viu, no único acto de roubo da minha vida, o que lhe fiz. Como fui imediatamente descoberta, lá levei mais umas reguadas e tive que me ir embora, atrapalhadíssima.
Esta situação remete-me, cinco décadas e meia depois, para um amigo, conterrâneo que trato por irmão, solicitador brilhante, cidadão notável, Cabós Gonçalves (desculpa a referência, “mano”) que diz que a vergonha de roubar é ser-se descoberto. Não havendo cleptomania entre os meus, o facto não teria sido genético mas provocado pelo terror da docente, das reguadas e expulsões, da aula, da Mocidade, do salazarismo, sei lá!?
No dia seguinte, levei os vinte e cinco tostões; o meu pai, regressado da viagem, como profissional ao Algarve, aborrecido com a ocorrência, embora convencido pela matriarca de que eu não voltaria a tirar nada. Obviamente.
A professora aceitou o pagamento, excepcionalmente sem comentários, o que me agradou e ainda hoje recordo; por uma vez, foi humanitária.
A Isabel Caeiro, discreta, discreta, nunca tocou no assunto e talvez, no seu humor, se ria agora por ser aqui relembrado, tanto tempo depois, um segredo nosso e da turma.
(Ai, ditadura, a quanto obrigaste, mesmo em situações que, comparadas com as daqueles, muitos, que fizeste sofrer e, até, mataste pareçam quase nada!
Longe, longe, embora, por vezes, nestes dois últimos anos, tentes ameaçar que queres pôr a cabeça de fora. Mas tal não vai acontecer porque parecer é muito diferente de ser; basta estudar a diferença.)
Manuela Fonseca













