A NetaPor Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
(À Ana Filipa)
A menina está quase a chegar; quando soube que ia ser de novo avó, numa altura em que a situação clínica a tornava mais desconfortável, percebeu que a alegria, sincera, dos que a rodeavam hiperbolizava-se para que acreditasse na Vida e se sentisse melhor.
Primeiro, apesar da alegria imensa, achou que o único neto que veria era o David, adolescente atilado, que pouco falava e muito a acompanhava e que não estaria, já, com a bebé; pouco a pouco, começou a crer em que talvez isso ainda viesse a acontecer e, no dia em que uma primeira ecografia mostrou à família a pequena e amada criatura e o seu género, dito, horas antes, pelo filho mais novo, em exclamações eufóricas, através do telemóvel, acreditou na futura realidade.
De seguida, ou não dormiu toda a noite ou, se o fez, episodicamente, foi a sonhar que passeava com ela, ambas no Parque Catarina Eufémia, ao pé de outros avós crianças e progenitores (como seria bom que todas, no Mundo, pudessem ter um belo local de acolhimento como aquele!).
Entretanto, Marta percebia que o tratamento não estava a resultar, o que confirmou quando a sábia, ponderada, humanitária e bem-disposta médica lhe disse, enquanto lhe mostrava, no computador, uma lista de nomes de medicamentos adequados à sua situação:
– Vamos mudar de produto; olhe o que ainda aqui há para poder dar banho à rapariga e sair com ela! (Riram-se ambas.)
Não deixou de perguntar à facultativa:
– Vou ter forças para as tarefas?
Face à afirmação da Doutora, sentiu que tinha que se preparar para estar cá aquando do nascimento da Ana Filipa que António, o avô, já imaginara rapaz, tal como acontecera com os três filhos e o David.
E a pequenita tinha que nascer para ela própria, para a VIDA, pela família, eufórica, pelas melhoras da avó paterna (felizmente, a outra está muito bem), para usufruir de um Portugal melhor do que este que uns saqueadores roubaram aos seus pais. (Como são jovens, talvez vejam melhores dias.)
Marta lembra-se de uma grande figura pública (do Barreiro e do Mundo) que, quando tinha notícias de que da sua / nossa terra muitas pessoas iam a uma histórica loja de Lisboa, citava e comentava, com graça, um anúncio publicitário alusivo ao estabelecimento, passado na rádio e ainda hoje visto na Internet, com a exclamação “Braz & Braz Tem!”. De facto, no meio da meia-confusa exposição dos artigos, a classe média em ascensão, encontrava o que pretendia e comprava, também, o que, fazendo menos falta, era induzida a senti-la. E revê, mentalmente, as compras no acolhedor “Ménage do Barreiro”, mesmo perto do Parque.
Medita, ainda, na estranheza em que o País foi transformado por incompetentes, como, por exemplo, com a venda de porcarias – chegadas com uma globalização feita de qualquer maneira, sem maneiras –, expostas em cada esquina ou ruela, algumas bem perigosas, como aquela colher de sopa que, cheia dela, quente, há pouco tempo não desfigurou (por Deus? Por acaso? Por ambos?) uma amiga, quando se quebrou em dois pedaços, na estreia, à frente do rosto dela.
A mulher encontra-se estável, no momento; a neta – tanta coisa comprada para a garota, os pedidos de ajuda, descontraídos aos agentes comerciais – vem aí! Que chegue a um Portugal com Governantes e investidores que, em futuro próximo, dêem grandeza e felicidade a essa criança, aos outros meninos, a todos!
(Marta – quase – esquece a precária saúde.)
Manuela Fonseca













