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Ena, pá! Tanto barulhoPor Carlos Alberto Correia
Barreiro

É preciso não ter medo das palavras nem dos sentimentos. Ódio, amor, respeito, tole-rância, gosto, desgosto são reações emocionais às contingências da vida. Cada um tem o direito de exprimir o sentido em relação a pessoas e instituições. Se houver exagero, lá estará a justiça para repara os danos. Esta é a beleza da repartição de poderes.

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Ena, pá! Tanto barulho Por Carlos Alberto Correia Barreiro

Por Jornal Rostos

Disse um dia um senhor, de seu nome Vladimir Ulitch Ulianov, mais conhecido por Lenine, que fazer a revolução socialista era relativamente fácil, o difícil seria mudar as mentalidades. Queria ele dizer, traduzindo a frase para conceitos mais atuais, ser penoso extirpar, mesmo em quem se pensa progressista, pensamentos e atitudes pro-venientes do inconsciente autoritário, intolerante, a resistir capcioso aos novos valores sociais. Perdoe-se-me se trago à colação tão ilustre personagem, utilizando, de cabeça e de maneira algo canhestra os seus ensinamentos. Faço-o porque, a propósito da minha crónica, publicada no Rostos, se levantou contra o autor e o Jornal um vendaval de impropérios e ataques a demonstrar cabalmente muita falta de cultura cívica, de noções urbanísticas, muitos desvios intencionais que nada tinham a ver com o motivo da crónica e, sobretudo, um lapso inaceitável de cidadania, incapacidade de perceção do escrito, interpretações canhestras e abusivas.

Relembremos: A partir de um acontecimento pessoal – as batidas no meu carro – pas-sava-se para a análise das suas causas e traduzia-se, sumariamente, o estado de espírito de alguns – bastantes – moradores no bairro. Utilizava-se para tanto algumas frases proferidas no decorrer da conversa que, creio eu, é boa informação para os poderes públicos aquilatarem, ao vivo, sentimentos de que podem não se ter apercebido. É esse o valor da informação num estado democrático. Mais, apenas em ditadura é crime dizer que o rei vai nu quando, verdadeiramente, não tem peça de roupa sobre o corpo. Na opinião de alguns dos meus oponentes, bem expressa no teor de certos comentários, os quais recomendo que sejam lidos e meditados, eu deveria, ao ver a nudez do rei, desviar respeitosamente o olhar e, ceguinho de cobardia, gabar o bom gosto da vestimenta real. Ou, não o querendo fazer, seria melhor mudar de cidade. Nesta só haveria lugar para quem pensasse que ter respeito por qualquer instituição era comer e calar, como nos “bons velhos tempos”.

É preciso não ter medo das palavras nem dos sentimentos. Ódio, amor, respeito, tole-rância, gosto, desgosto são reações emocionais às contingências da vida. Cada um tem o direito de exprimir o sentido em relação a pessoas e instituições. Se houver exagero, lá estará a justiça para repara os danos. Esta é a beleza da repartição de poderes. É também a espinha dorsal do viver democrático porquanto, é no escrutinamento e limi-tação das áreas de poder que se instala a cidadania e o verdadeiro respeito. Se eu for casado com uma senhora coxa e alguém, por mais inoportuno que seja, se referir a esse facto, não deve a paixão cegar-me e, contra toda a evidência, vir para a rua bara-fustar contra quem afirmou tal facto, considerando essa verdade insofismável uma falta de respeito. O verdadeiro respeito existe na continuada afirmação da verdade. Por isso, reafirmo, ao construir-se um parque desportivo em zona habitacional foi cometido um erro ao não serem criadas as infraestruturas adequadas à correta utiliza-ção do espaço público. Há aqui uma falta que ainda não foi reparada e que continuará a ser erro até que a mesma seja ultrapassada. Os responsáveis serão sempre o Clube e a Câmara, tenha lá ela a composição política que tiver, estenda-se o problema pelos mandatos que se estender. Não é ataque pessoal a ninguém, nem é falta de respeito por pessoas ou instituições.

Vivemos numa cidade, como refere o pintor Kira, com mais de setenta coletividades. Todas são respeitáveis, todas trazem, em variados campos, prestígio e riqueza ao Bar-reiro. Nenhuma é mais respeitável que outra. No entanto, força de clubites exageradas e intolerâncias espúrias, tenho ouvido muito bom Camarro defender a que lhe é mais querida e desfazer violentamente noutras. São opiniões, posições, certas ou erradas, mas com as quais temos de conviver. Não podemos considerar esses quereres e não quereres como desrespeito. Tem-se a liberdade de amar ou odiar quem se quiser, de preferência com bons motivos, muitas vezes sem eles, porque paixão é emoção vinda do irracional de nós. No entanto, precisamente porque reconhecemos isto, não poderemos deixar-nos dominar por elas. Temos de conseguir um juízo suficientemente distanciado para poder ver a trave no nosso olho. Só depois ganharemos o direito de criticar o argueiro no olho do vizinho.

Carlos Alberto Correia

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