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Cara Lisa MariaPor Manuela Fonseca
Barreiro

“Começar de novo” é a evocação de um percurso de vida multifacetado, acidentado, persistente, convicto. Que chega ao momento actual como hino à crença na riqueza interior que possuis, em valores sem preço, décadas passadas sobre o dia em que, jovem do Barreiro, ousaste ser artista, enfrentando as dificuldades de Lisboa. Continuas bela intérprete de canções que nos parecem as das vezes primeiras da que foi a quase-ainda-menina Lisa Maria.

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Cara Lisa Maria Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Cara Lisa Maria

Encontrei-te, há uns anos, na Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense, acolhedora casa, cada vez mais moça, numa manhã de fim-de-semana culturalmente radiosa, dedicada à nossa poesia, uma das centenas ou milhares de actividades que o meu irmão espiritual Sousa Pereira tem feito, ao longo do tempo, para felicidade dos que com ele aprendem.

A tua versatilidade, como cantora, surgiu-me na memória. Como nada sabia, confesso-o, das competências vocais que (man)terias, desejei que continuassem óptimas.

Confirmei-as, posteriormente, através do trabalho que desenvolves na Universidade da Terceira Idade do Barreiro, no UTIB-Teatro, que, no ano transacto, obsequiou o Futebol Clube Barreirense (e, por extensão, suponho, também a minha pessoa), na interpretação de uma proposta de exercício dramático, “O Comboio da Pedra”, trabalho que dediquei ao centésimo aniversário da agremiação que tanto amo, mormente ao Ginásio-Sede, publicado por este jornal sob a égide do empresário João Gouveia, administrador da Unilogos.

Celebrados os cem anos em, 11 de Abril de 2011, o texto só surgiu em cena em 2012, pela insistência do estudioso e incansável encenador Luciano Barata que, formador da UTIB e director do grupo atrás referido, nos deu, com todos os colaboradores, a leitura, que levou à metamorfose pela composição teatral que imaginou, em cinco espectáculos no Concelho, com centenas de espectadores, numa sincera adesão ao que lhes era apresentado, com alegria e dinamismo, numa visão, de parte do caminho do Barreirense, construído por vontade, sacrifícios, gestão e concretização de um sonho que passou a desígnio e símbolo de gerações de adeptos.

O Ginásio-Sede foi uma das raízes de um Barreirense imorredoiro, notável obra que provocou a admiração e apoios em apaniguados de outros Clubes, conhecedores dos escassos recursos financeiros desta antiga vila.

(O Ginásio-Sede foi um dos alicerces da educação aberta que tive, parte integrante da minha vida desde a inauguração que, criança de seis anos, vestido novo – o costume de ocasiões solenes –, tive a felicidade de presenciar, em Maio de 1956, no meio da multidão, mãos dadas aos comovidos pais. Permanece, inviolável, entre os objectos dos meus sentimentos mais elevados.)

Mereceu, em mais uma noite gloriosa, a última representação do “Comboio”: de afectos, memórias, entrelaçado de manifestações artísticas, fio condutor do passado para o futuro de um Clube Grande – desportivamente, em valores, atitudes actos.

Lisa Maria, vicissitudes várias impediram-me de seguir a UTIB e o UTIB-Teatro, nos últimos meses. Mas “não há mal que sempre dure”: regressei ao prazer de poder estar convosco, no dia 17, no Auditório Municipal Augusto Cabrita, e saborear a peça que te é, justamente, dedicada, “Começar de Novo”, mosaico, fruto de labor, perfecionista, em harmoniosa conjugação de palavras, emoções, movimentos, sons, cores, luzes que são parte, estilizada, de ti. Como pessoa individual. Como figura de todos nós.

Bem mereceste o AMAC com um vasto grupo de cidadãos – excelente marca da Autarquia – que poucas oportunidades terão de comungar de uma peça teatral ou presenciar outras manifestações de Cultura! E de te ver e escutar.

No palco, que figura a Vida e lhe dá mais alento, a magia: és a jovem Lisa Maria, a lutadora Lisa Maria, a mulher de família Lisa Maria, a actriz Lisa Maria. Continuas a cantora Lisa Maria, na bela voz que te tornou popular.

“Começar de novo” é a evocação de um percurso de vida multifacetado, acidentado, persistente, convicto. Que chega ao momento actual como hino à crença na riqueza interior que possuis, em valores sem preço, décadas passadas sobre o dia em que, jovem do Barreiro, ousaste ser artista, enfrentando as dificuldades de Lisboa. Continuas bela intérprete de canções que nos parecem as das vezes primeiras da que foi a quase-ainda-menina Lisa Maria.

(Recordas, com generosidade, muitos colegas, entre os quais o apreciado francês Claude François, precocemente desaparecido há quarenta anos, ícone da minha juventude, criador de “Comme d’habitude” que se mantém, perene, nas recordações de tantos de nós e nas interpretações de outros cantores que contribuíram para a universalidade da canção.)

Disseste, no regresso a Portugal, em 1983, depois de longa ausência: “Já pus a pata na poça”, tal a má impressão causada por uma metrópole ainda longe do que querias / do que queríamos para a primeira cidade de Portugal.
Lisboa, certamente metáfora de uma Pátria que, de então para cá, se transformou e desenvolveu – vilipendiada, actualmente, por representantes, rascas, de poderes financeiros obscuros, o Homem esquecido.

Poderes sem dignidade, vergonha, solidariedade, caridade. De gentalha – falha de saberes morais, históricos, políticos, sociais, antropológicos, económicos – que pretende destruir o melhor de Portugal, NÓS: utilizados por serventuários de um capitalismo desordeiro que trata quase todos os Portugueses como espécie de mercadoria descartável, nos preconceitos e procedimentos de antanho que cultivam.

Lacaios, diligentes, dos que temem e reverenciam, de forma nojenta. Eles, sim, metem, em cada hora que passa, as patas nas poças. Até deixarem, para sempre, este velho solo lusitano.

Que chegue, breve, a altura de se juntarem à horrível mentora, a irritante (só?) alemã que nasceu com uma pedra no lugar de coração e deve supor que tal calhau vai mandar no Mundo, que parva!

Continuemos, Lisa Maria, a resistir, em lição que recebemos dos antecessores, para reabilitar Portugal e tirá-lo das garras de um qualquer ser, chamado Maldade-Mãe-e-Pai que pretende pôr, até ao infinito, os ovos da corrupção.

Continuemos o combate. No Barreiro, no País! “Com as armas que temos na mão”, inclusive as Artes, terror de todos os brutos que querem dominar Portugal e o Mundo. Tarefe infrutífera dos monstros: em esperança, a nós regressarão Portugal e o Mundo da Equidade!

Produzamos Poesia no sentido lato da Palavra! Com a tua vontade, a tua arte, a tua simpatia, o Barreiro, a UTIB, o UTIB-Teatro, Portugal, todos os oprimidos de todos as terras sorrirão um dia! Sorriremos, sim, Maldade-Mãe-e-Pai!

Bem hajas, Lisa Maria, tal como os que te rodeiam, as gentes boas daqui e, simbolicamente, de todo o lado, pela indução à vontade de sermos melhores.

(“Venceremos!”)

Saudações da
Manuela Fonseca

(Barreiro, 25 de Outubro de 2013)

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