Sem pompa, nem circunstânciaPor Jorge Fagundes
Barreiro
A ele se seguiram, cada um com as suas características, o seu genro, D. Manuel de Mello, falecido em 1966, e seu neto Jorge de Mello, ainda vivo e um dos continuadores, com seu irmão José Manuel, da vocação empresarial da empresa.

Por Jornal Rostos
Nota prévia: o artigo que se segue foi transmitido em 07.11.1991 pela Rádio Sul e Sueste, integrado num programa semanal de crónicas, predominantemente barreirenses (Brisas e Nortadas) do autor.
Sem pompa, nem circunstância
Ao iniciar, em 1908, a construção das suas primeiras fábricas de ácido sulfúrico e de superfosfato, a CUF, então sobre a orientação de Alfredo da Silva, veio modificar de maneira extraordinária todo o viver do Barreiro.
Se no aspecto histórico existe já razoável documentação, está ainda por fazer o estudo sociológico sobre a influência da CUF no Barreiro e ao longo das dezenas de anos em que a empresa existiu como tal.
De 1908 até 1974, três foram os principais dirigentes da CUF, a saber: até 1942, data do seu falecimento, Alfredo da Silva, uma figura excepcional de industrial, com nível muito para além das nossas reduzidas fronteiras.
A ele se seguiram, cada um com as suas características, o seu genro, D. Manuel de Mello, falecido em 1966, e seu neto Jorge de Mello, ainda vivo e um dos continuadores, com seu irmão José Manuel, da vocação empresarial da empresa.
A memória dos dois primeiros encontra-se perpetuada na toponímia local (Avenida Alfredo da Silva e Rua D. Manuel de Mello) e, curiosamente, em dois campos de jogos afectos a modalidades desportivas onde não consta se tenham notabilizado: o estádio Alfredo da Silva e o campo D. Manuel de Mello. Na Avenida, do mesmo nome, outrora designada por da Bélgica, encontra-se também a polémica estátua de Alfredo da Silva.
Ao longo de dezenas de anos, com base na primogénita CUF, todo um vasto império se foi consolidando, consubstanciado no denominado Grupo CUF.
Com o 25 de Abril, e na sequência das decisões tomadas a nível político e económico, aquele que fora um poderoso grupo, situado entre as duzentas maiores empresas fora dos Estados Unidos, acabou como tal.
A empresa mãe, a CUF, primeiro foi nacionalizada e depois, de parceria com os Nitratos de Portugal e com o Amoníaco Português, transformada na Quimigal, no início empresa pública, e, posteriormente, sociedade anónima, mas com capitais públicos.
Os anos foram passando, e dentro do que se convencionou chamar a reestruturação da Quimigal, transformou-se esta uma “holding” e criaram-se, com base nos seus negócios, uma série de novas empresas, muitas das quais sediadas no Barreiro.
A evolução prevista aponta para uma privatização parcial ou total daquelas, a finalizar com a, também, privatização da Quimigal.
Dentro deste esquema de alienação da tais empresas, foi uma delas comprada, há pouco tempo, pelo Dr. Jorge de Mello.
Trata-se da LUSOL, com instalações no Barreiro, e não só, e ligada, fundamentalmente, à indústria de óleos comestíveis.
A notícia dessa compra, realizada por verba avultada (foi referido um valor acima dos cinco milhões de contos) não mereceu títulos de caixa alta, nem grande destaque nos órgãos informativos. Ou seja, o reingresso no património do antigo senhor da empresa de uma pequena parte dos bens de que, via nacionalização, fora desapossado, processou-se discretamente, sem pompa, nem circunstância.
Mas, por ironia do destino, formalizou-se na Sede da Quimigal, antes Sede da CUF, de onde um dia, vexado, apupado, assobiado e humilhado, quiçá por alguns que muitos favores ou benesses lhe deviam, saíu o Dr. Jorge de Mello!
Jorge Fagundes













