CRITICAS E CRÓNICAS –«Um momento no cinema»«O Conselheiro»
Por DIOGO COELHO

Por Jornal Rostos
Hoje falarei de um filme dificil. Um filme que teria tudo para ser fantástico, todos os elementos necessários para se tornar um filme de referência tanto no género em que se insere como também no ano especialmente fraco a nivel de qualidade cinematográfica que atravessamos. Falo portanto de "O Conselheiro", o mais recente trabalho de Ridley Scott com um elenco de estrelas como Michael Fassbender, Javier Bardem, Penelope Cruz, Cameron Diaz e Brad Pitt e um argumentista que previamente nos brindou com uma obra literária adaptada para um dos melhores filmes, seguramente, dos últimos 20 anos chamado "Este País não é para velhos". O argumentista que falo chama-se Cormac McCarthy e é precisamente o problema neste filme.
O talento deste argumentista é imenso, a sua capacidade de criação de diálogo poético, fluido e recheado de contextos subliminares e metafóricos é de admirar. A forma como elabora cenas de apenas duas personagens a conversarem sobre algo muito mais sério do que aparentemente é transmitido pela sequência em questão é, indubitavelmente, sinal de imensa qualidade e de experiência de vida que ecoa de forma clara e perfurante em cada frase proferida como uma pincelada num quadro novo. Tal exemplo resulta de forma maravilhosa com o obscuro e psicótico thriller dos irmãos Cohen, "Este Pais não é para velhos" onde o diálogo (ou a pontualidade do mesmo) são essenciais para conduzir uma história suficientemente detalhada e simples ao mesmo tempo, em que as camadas de tensão narrativa e as caracterizações das personagens são objectivas e ainda assim abrangentes o suficiente para uma intepretação individual do espectador. Cormac McCarthy, nesse filme, ajuda o espectador a pintar o seu quadro sem nunca induzir o mesmo a pensar que será algo mais do que apenas um ajudante, a obra pertence ao seu mestre.
O problema é que, neste mais recente trabalho, o resultado é devastador. O elenco engrandece com o talento vislumbrável e carece de personagens. É um filme sem rumo, que aborda a tensão de forma curiosa mas espera que o espectador desenvolva qualquer tipo de sintonia com as personagens, situação essa que pura e simplesmente não ocorre. Os diálogos, embora poéticos e com ideias interessantes sobre o funcionamento da mente humana e de onde nos pode levar o sentimento básico da ganância, é fortemente vincado e pouco objectivo, levando as "personagens" a embarcar em longos monólogos que não levam a qualquer conclusão e que acabam abruptamente sem qualquer tipo de abordagem ou objectivo claro. É um filme que espera imenso do espectador sem querer dar nada em troca.
Ridley Scott não compromete mas toda sua visão narrativa e de estética esbarra num guião demasiado "livre", sem personagens e com uma linha narrativa que se torna aborrecida, lenta, pouco objectiva e sem uma direcção clara. Talvez não fosse tão má ideia assim, abdicar um pouco desta liberdade criativa ilimitada a favor de uma clareza de ideias, a favor de uma construção de personagens e de uma história que ofereça a mesma tensão, a mesma intensidade e emoção mas com um bocadinho mais, sem abusar claro está, de cinema.
DIOGO COELHO













