Festival Literário de Azeitão e Setúbal“Não vamos deixar a escrita ser uma coisa que deixa de ser democrática”
. afirmou Alex Couto
O papel da leitura na criação literária e os desafios da publicação do primeiro livro estiveram hoje em destaque em duas sessões com mais de uma centena de alunos, no arranque do 1.º FLAS – Festival Literário de Azeitão e Setúbal.

Por Jornal Rostos
“Não vamos deixar a escrita ser uma coisa que deixa de ser democrática”, afirmou o escritor setubalense Alex Couto, antigo aluno da Escola Básica e Secundária Lima de Freitas, onde decorreram as sessões. A iniciativa contou também com a participação de Manuel Seatra, com quem partilhou experiências e desafios do percurso editorial.
As sessões “A Publicação do Primeiro Livro”, moderadas por Carolina Bico, envolveram quatro turmas do ensino secundário e abordaram diferentes caminhos para a criação e publicação literária, desde a edição independente às exigências das grandes editoras.
Nascido em Setúbal e criado no Bairro do Viso, Alex Couto recordou que publicou “Nova Lisboa”, em 2019, com a ajuda de amigos, que colaboraram na criação da capa e na paginação da obra, por considerar que dificilmente conseguiria despertar o interesse de uma editora tradicional.
“Eu fiz isso porque eu achava que as editoras normais não iam publicar um rapaz do Bairro do Viso”, explicou o autor, que viria a celebrar um contrato para a publicação de três livros com a Penguin Random House, experiência que lhe trouxe novas oportunidades, mas também maiores exigências e prazos de produção.
Inspirado nas transformações de Lisboa e nas dificuldades de acesso à habitação, o primeiro livro encontrou leitores que se identificaram com as experiências retratadas, demonstrando como as vivências pessoais podem transformar-se em matéria literária e alcançar públicos de diferentes gerações.
Também Manuel Seatra partilhou as dificuldades que antecederam a publicação de “Dias de Folga”, em 2018, recordando que o incentivo de um professor universitário, a quem mostrou alguns textos, foi decisivo para ganhar confiança e procurar uma editora.
Depois de várias tentativas e respostas negativas, conseguiu publicar a obra através de uma pequena editora independente, tendo destacado perante os estudantes a importância destas estruturas na descoberta de novos autores.
“A escrita, para mim, vem sempre de mão dada com a leitura”, afirmou Manuel Seatra, ao defender a importância do contacto com diferentes autores e linguagens para o desenvolvimento de uma voz literária própria.
A inteligência artificial na criação literária esteve também em debate, por iniciativa de uma aluna, com os dois escritores a defenderem a importância de preservar a criatividade e a identidade dos autores perante a crescente utilização destas ferramentas.
Alex Couto revelou que utiliza ferramentas de inteligência artificial na atividade publicitária, mas não na criação literária, por considerar que estas tecnologias não conseguem reproduzir a identidade e o estilo de escrita de cada autor.
Já Manuel Seatra alertou para os riscos de uma crescente dependência tecnológica, embora tenha reconhecido o potencial da inteligência artificial noutras áreas, nomeadamente na investigação científica e na medicina.
O processo de revisão editorial foi igualmente abordado, depois de um aluno questionar se os erros ortográficos poderiam constituir um obstáculo à publicação de poemas.
Ao longo das duas sessões, os escritores procuraram demonstrar que a literatura pode nascer das experiências quotidianas, das inquietações pessoais e da observação da sociedade, incentivando os jovens a encontrar na escrita uma forma de expressão e reflexão crítica.
Organizado pela Câmara Municipal de Setúbal, o 1.º FLAS – Festival Literário de Azeitão e Setúbal decorre até 7 de novembro, sob o tema “Literatura, Memória e Futuro”, com mais de três dezenas de atividades gratuitas, distribuídas por dez espaços do concelho, incluindo encontros com escritores, oficinas, debates e iniciativas dedicadas à promoção da leitura. Algumas atividades exigem inscrição ou estão sujeitas à lotação dos espaços.
Fonte - CMS













