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Quotidianos

Por Cláudio AnaiaO Vapor
Barreiro

Vaidade de vaidades! diz o pregador, vaidade de vaidades! É tudo vaidade.»  Eclesiastes.  

A humanidade vive numa busca incessante por garantias.

3 min de leitura
Por Cláudio Anaia O Vapor Barreiro

Por Jornal Rostos

Trabalha para acumular estabilidade, planeia o futuro com detalhes milimétricos e deposita a expectativa de felicidade no próximo objetivo alcançado: o emprego ideal, a casa própria, o reconhecimento dos outros ou o conforto material. Cria-se a ilusão de que, ao controlar todas as variáveis, se encontrará finalmente a paz.


No entanto, a vida insiste em lembrar-nos que a condição humana é frágil. É por este motivo que o livro bíblico de Eclesiastes é considerado por muitos, uma das obras literárias mais terapêuticas e libertadoras já escritas. Ao contrário de outros que o rotulam como pessimista, a sua mensagem central não foi feita para desanimar, mas para ajudar a combater a ansiedade crónica de tentar ancorar a existência em coisas que não duram.


Quando o autor de Eclesiastes afirma que tudo é hevel,  termo hebraico para vapor ou fumo, não está a dizer que a vida não tem valor. Está a descrever a sua verdadeira natureza, o vapor é real, mas é impossível de agarrar. Tentar encontrar a felicidade plena nas conquistas terrenas ou no aplauso alheio é como tentar segurar o fumo com as mãos, quanto mais se apertam os dedos, mais ele se esvai. A ansiedade nasce precisamente desse esforço inútil de querer tornar eterno aquilo que é inerentemente passageiro.


Aceitar que a vida «debaixo do sol» é um breve sopro traz um alívio profundo. Quando se para de exigir que os bens materiais, o sucesso profissional, a imagem pública ou as circunstâncias perfeitas, nos deem a satisfação que simplesmente não conseguem oferecer, quebra-se o ciclo da frustração. Compreende-se assim que, o que é verdadeiramente importante é o Ser e não o Ter.


Eclesiastes liberta-nos para o presente. Ao retirar o peso da eternidade das coisas temporárias, o livro convida-nos a saborear a beleza do agora. Passa-se a ver o trabalho não como um ídolo de validação, mas como um dom diário. Passa-se a desfrutar de uma refeição simples, de um momento com a família ou de um dia de sol com genuína gratidão, sem a pressão de que esses instantes precisem de durar para sempre para terem valor.


A verdadeira sabedoria não está em desesperar diante da brevidade da vida, mas em aceitar que nem tudo depende de nós. Para mim,  o melhor caminho passa por aprender a parar mais vezes e elevar o pensamento ao Criador, pois é também nessa conexão espiritual que reside a verdadeira serenidade. Ao reconhecer que o ser humano é apenas passageiro num tempo que pertence a Deus, deixa-se de correr atrás do vento. Encontra-se, finalmente, a liberdade de viver com leveza, descansando na certeza de que a identidade e o propósito não dependem daquilo que o tempo desgasta, mas daquilo que permanece para sempre.


Cláudio Anaia

Militante da Justiça e Direitos Humanos

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