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O Suado e Inexistente EmpregoPor Manuela Fonseca
Barreiro

O primeiro-ministro foi, por coincidência, um bom professor de Frederico. Pena (ou serviço às classes exploradoras?) que, chegado a este cargo, já o tempo dos ensinamentos, dos conteúdos programáticos e dos caminhos do futuro devam ter-se varrido da sua cabeça, eventualmente a pensar numa coisa e a produzir o seu contrário.

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O Suado e Inexistente Emprego Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Frederico pertence a uma geração cujos pais, graças a grandes sacrifícios dos avós e deles próprios, tiveram mobilidade social ascendente. Têm Valores, Cultura, durante boa parte da vida puderam apreciar as Artes, e gozar as coisas boas da vida.
O rapaz, sem qualquer vida privilegiada, usufruiu de um certo conforto, tal como os irmãos, mais velhos, um deles do primeiro casamento do pai.
Concluída licenciatura, uma Bolsa de Estudo Internacional de alguns meses, a meio do curso, que lhe transmitiu conhecimentos e segurança pessoal, Frederico conseguiu, na segunda metade da primeira década de dois mil, um estágio IEFP, escolha de trabalhos, visitas de estudo, em Portugal e fora dele.
Tudo isso lhe deu e melhorou competências e fê-lo- crer que o seu esforço laboral daria, mais tarde ou mais cedo, frutos sãos. Engano que só entendeu quando a porta do emprego se fechou. Currículos enviados em Português, Francês, Inglês, concursos abertos ou espontâneos, entrevistas, bem ou mal preparadas, bem ou mal conduzidas, gastos inusitados em transportes, refeições, alguma roupa e calçado novos deram-lhe a possibilidade zero de alterar a vida, sem salário nos últimos doze meses.

Se chamado para entrevistas, dizem-lhe que se dedicou mais à actividade A do que à B, a pretendida (então não leram os documentos enviados pelo rapaz e fizeram-no andar centenas de quilómetros?). Duas vezes de mãos a abanar no regresso do Algarve – numa nem havia contrato e a viatura a utilizar seria a sua, nesta nova forma de feudalismo que nós e o Mundo não esperávamos – e o Economista José Manuel Soares identifica, primorosamente. (1)
Batem-lhe com a porta na cara com desculpas diversas: ou porque as Línguas que sabe precisam de mais um retoque, com gastos, muitos mais gastos, sem certeza alguma de um novo posto de trabalho, ou porque aparece um concurso, aparentemente muito interessante, no qual tem aprovação e dizem-lhe, acto contínuo, que exercerá determinada profissão, após formação em local desconhecido, muito onerosa, no país ou por essa Europa. Caso obtenha êxito nela, só então tomará conhecimento onde parte da empresa estará sediada para a sua actividade: na Polónia? Na Grécia? Na Irlanda? Em Portugal?
(Afinal que brincadeira de péssimo gosto lhe fazem e a outras pessoas? Esta gente é sádica.)

Local certo para viver? Ignora. Constituição de família? Nas calendas gregas. Sente-se cada dia mais achincalhado por um patronato totalitário, por um (des)governo que está farto de provar o desprezo pelo País, sem atribuir a mais pequena importância a todos os que têm necessidades, seja qual for a índole delas.
Não quer gastar mais dinheiro aos pais que vivem das suas reformas que já foram confortáveis e agora vão baixando, como o nível de uma barragem em altura de seca (a das aflições financeiras que não são por causa deles, não), cada vez mais idosos e um sem saúde.

O primeiro-ministro foi, por coincidência, um bom professor de Frederico. Pena (ou serviço às classes exploradoras?) que, chegado a este cargo, já o tempo dos ensinamentos, dos conteúdos programáticos e dos caminhos do futuro devam ter-se varrido da sua cabeça, eventualmente a pensar numa coisa e a produzir o seu contrário.
Com espiões, submarinos e escândalos a envolvê-los (não, ministro X, não imergem uma vezes e emergem outras, como afirmou: estão aí) e uma – dita – “troika”, governadora-geral do País, entidade antipática no seu capitalismo de quintal, que tem como objectivo submeter os mais fracos, esses por onde a corda se parte.
Afinal o que resta a Frederico? E aos outros? Pensa nas suas decepções, ao invés do que os pais concretizaram, agora arrasados com o que se passa cá e no Mundo, estupefactos com o que acontece aos mais frágeis, os que mais precisam de apoio.

Ainda que o elemento masculino do casal de progenitores sofresse, na pele, a terrível Guerra Colonial(ista), teve possibilidade de voltar bem e progredir na vida, tal facto sempre disfarçado no correr dos dias e anos. Essa coisa foi horrível e nunca mais lhe passou pela cabeça ver a Terra em novo caos, o País em novas aflições, um dos filhos em transtorno, na busca do pão.
(Frederico pergunta a si próprio: – Quando deixa o lugar a quem saiba exercê-lo melhor, esse incompetente ministro da Economia, vindo de tão longe como Messias? Reconhece que o problema não se resolva com tal troca mas talvez uma pequena brisa de esperança alivie o cansaço do rapaz e de todos os outros nas suas condições.)
Farto do emprego zero, da bolsa vazia, dos desígnios maculados, da vida adiada, bom nadador, exclama em voz alta:
– ---da, estou farto! Vou à Costa dar um mergulho. E depois nado, nado até esquecer, por um bocadinho, estes ordinários! Já o meu avô materno fazia o mesmo durante a outra ditadura! Ligo já à Teresa!

Manuela Fonseca*
* Colunista do Jornal Rostos

Referências
(1) (Cf.) José Manuel Soares

https://www.rostos.pt/quotidianos/111672-isto-esta-demais-por-jose-manuel-de-oliveira-soares-barreiro, consultado

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