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Quotidianos

Por Paulo MargalhauPortas escancaradas para que país?
Barreiro

A expressão «portas escancaradas» tornou-se uma das fórmulas mais repetidas no debate sobre a imigração em Portugal.

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Por Paulo Margalhau Portas escancaradas para que país? Barreiro

Por Jornal Rostos

A sua força está em substituir a análise por uma imagem alarmista que sugere descontrolo e ameaça, sem esclarecer quantas pessoas o país deve acolher, em que condições ou para responder a que necessidades. Quem defende uma redução acentuada da imigração deve explicar que Portugal pretende construir e como responderá às necessidades de uma sociedade que conta com quem chega para trabalhar, cuidar, produzir e participar na vida coletiva.
 
Basta observar o quotidiano para perceber que os imigrantes não são uma presença marginal. Encontramo-los entre engenheiros, operários e cuidadores, na hotelaria, na restauração e no comércio. O turismo, um dos motores do crescimento económico na última década, conta também com o seu trabalho. São motoristas e estafetas, mas também investidores, médicos, enfermeiros e bombeiros. A sua participação atravessa atividades e níveis de qualificação, com uma relevância que se reconhece no funcionamento das empresas e dos serviços. Ignorar esta realidade é discutir um país imaginário, bastante mais cómodo para fazer discursos do que o país real é para governar.
 
Quem propõe reduzir drasticamente a entrada de novos trabalhadores deve explicar como responderá às necessidades do país, com que medidas, a que custo e em que prazo. Governar exige um pouco mais do que transformar uma porta fechada num programa de governo.
 
Entre 2011 e 2015, durante a crise financeira, a intervenção da Troika e os seus efeitos, terão ocorrido cerca de 525 mil saídas de portugueses. Muitas famílias viram partir filhos, irmãos e amigos à procura de trabalho e de futuro. Perdemos profissionais, capacidade de produzir e a presença quotidiana de pessoas que poderiam ter construído aqui os seus projetos de vida.
 
Reclamávamos então que os países de destino reconhecessem o valor dos nossos profissionais e lhes permitissem construir uma vida. Essa memória não pode ser apagada quando olhamos para quem chega. O desejo de melhorar a vida de uma família merece consideração tanto quando leva um português a sair como quando traz alguém para Portugal. Exigir para os outros menos humanidade do que reclamámos para os nossos é uma incoerência que deveria merecer reflexão.
 
A demografia acrescenta uma outra e decisiva dimensão. Segundo o INE, em 2025 nasceram 87 764 crianças de mães residentes em Portugal e morreram 121 817 residentes. O saldo natural foi negativo em 34 053 pessoas. No mesmo ano, cerca de 35 por cento dos nascimentos foram de mães nascidas no estrangeiro. Os números mostram a importância destas famílias para a renovação das gerações e obrigam qualquer proposta de redução da imigração a explicar como enfrenta esta realidade.
 
Quando se invoca a defesa da cultura portuguesa, importa pensar nas condições que permitem transmiti-la. Uma cultura vive nas pessoas que falam a língua, frequentam as escolas, trabalham e educam os filhos. Não existe cultura sem pessoas, economia sem trabalhadores, escolas sem alunos. Uma comunidade que envelhece sem renovar as gerações caminha para a sua própria extinção. A defesa da identidade exige que se pense em quem a poderá receber, viver e transmitir.
 
Essa responsabilidade exige uma política de integração com meios, objetivos e exigência. Aprender português, conhecer as instituições, respeitar as leis e participar na comunidade são condições importantes para construir pertença. Ao Estado cabe assegurar processos administrativos eficazes, escolas preparadas, acesso à aprendizagem da língua e fiscalização das condições de trabalho e de alojamento. Às empresas cabe assumir as responsabilidades que acompanham o recrutamento. À sociedade cabe permitir que o esforço de integração encontre oportunidades concretas de participação, para que quem aqui constrói a sua vida possa sentir que também faz parte do país.
 
Se a sobrevivência demográfica do país conseguir um dia uma vaga na ocupadíssima agenda da indignação política nacional, talvez venha finalmente a ser discutida com a devida gravidade. Quem sabe, talvez com a mesma urgência, comoção institucional e solenidade de Estado que um tijolo oferecido consegue convocar quando se afasta da sua respeitável vocação de ajudar a construir uma casa ou uma piscina. Ou com o zelo que umas tendas ou uma echarpe despertam no discurso político quando ofendem a estética de uma praça e reclamam uma reposição da ordem antes do amanhecer. Para recompor a paisagem e repor a ordem, a autoridade mostra-se implacável e chega de capacete. Quando um equipamento público transforma a glória em luto, a mesma firmeza exibe uma coragem tão discreta que ninguém dá por ela. Há incómodos que se removem de madrugada e responsabilidades que se deixam repousar.
 
Talvez o futuro demográfico do país mereça uma pequena parte de tão pronta diligência. Afinal, janelas reparam-se num ápice. Já a arquitetura humana de uma nação, uma vez desmoronada, não há cimento que a salve.

Paulo Margalhau, 2026

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