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Quotidianos

Por Cláudio Anaia “Pega nos teus sapatos, puxa as tuas meias e vai!"
Barreiro

«O que fazemos pelos mais pobres e abandonados é a medida exacta da nossa própria humanidade.» -— Madre Teresa de Calcutá. Esta semana, enquanto assistia ao documentário da Netflix sobre o grupo Masaka Kids Africana, fui surpreendido por uma onda avassaladora de memórias.

4 min de leitura
Por Cláudio Anaia “Pega nos teus sapatos, puxa as tuas meias e vai!" Barreiro

Por Jornal Rostos

Ao ver aqueles sorrisos brilhantes e a energia contagiante daquelas crianças ugandesas a dançar sobre as dificuldades, os meus olhos encheram-se de lágrimas. Não eram lágrimas de tristeza, mas sim de uma profunda e feliz saudade. Fui transportado de imediato para a maior e mais transformadora experiência da minha vida: o início dos anos 90, no Nordeste do Brasil.

Lembrei-me dos meus tempos como missionário leigo, numa época em que tínhamos uma imensa vontade de fazer a diferença e transformar a realidade. Fazia parte do MSV (Movimento ao Serviço da Vida), um grupo de jovens que, ano após ano, escolhia abdicar do conforto das suas férias de verão para ir viver intensamente a realidade das favelas brasileiras. Uma das nossas bases de operações era o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente, um espaço de amor e resistência calorosamente apoiado pela Igreja Católica.

O cenário era desafiante, mas a matéria-prima humana era pura luz. Uma das coisas que mais me marcou, e que o documentário me fez reviver, foi perceber que, apesar da miséria extrema em que viviam, aquelas crianças eram incrivelmente talentosas. Havia nelas uma inteligência viva, uma arte natural e, acima de tudo, uma carência de ternura imensa. Não tinham quase nada material, mas transbordavam uma grande necessidade de afecto, de um abraço, de atenção.

Como jovens missionários, sabíamos que era importante criar raízes para o futuro. Por isso, desenvolvíamos vários tipos de apoio a nível de formação profissional. Com a ajuda preciosa de alguns voluntários da comunidade, o nosso grande objetivo era tirar os rapazes e as raparigas da rua, oferecendo-lhes a oportunidade de aprenderem uma profissão. Ensinar um ofício àquelas crianças e jovens era devolver-lhes a dignidade e abrir uma porta que a sociedade teimava em fechar.

A conexão que senti ao ver o Masaka Kids Africana foi imediata. Nascido no interior do Uganda em 2013, este abrigo comunitário acolhe crianças órfãs e desamparadas, usando a música e a dança contemporâneas como ferramentas terapêuticas para curar traumas e restaurar o amor-próprio. A missão deles no Uganda é dar tecto, cuidados médicos, educação e dignidade a quem a pobreza extrema ou a guerra tentaram silenciar, a mesma linguagem universal que falávamos nas favelas do Nordeste brasileiro. É impossível não destacar o trabalho extraordinário dos seus monitores e orientadores, mestres de vida e de esperança que, no dia a dia, encarnam a missão de ensinar, proteger e erguer cada uma daquelas crianças. São eles que mantêm viva a certeza de que a vulnerabilidade social não aniquila a alegria da infância se houver alguém disposto a estender a mão.

Na verdade, esse cuidado diário é o motor do hino de motivação do grupo, que se tornou um lema viral em todo o mundo através da canção "Back to School": "Pega nos teus sapatos, puxa as tuas meias e vai!" ("Pick up your shoes, pull up your socks, and go!").

É o imperativo moral de quem não se conforma com a dor, de quem escolhe calçar a determinação, ajustar a dignidade e caminhar de cabeça erguida contra o vento da adversidade. Foi isso que aprendi nessa minha grande experiencia e é isso que aqueles orientadores continuam a ensinar hoje.

Nós não tínhamos os vídeos virais da internet, mas tínhamos as salas de aula da nossa escola, o futebol jogado no pó, os abraços apertados e o brilho nos olhos de quem descobria que podia ser o mestre do seu próprio destino. Ver aquele documentário foi a prova viva de que o amor e o trabalho comunitário deixam marcas eternas.

Mais de trinta anos depois das minhas experiências como missionário leigo no Nordeste do Brasil, a história das crianças de Masaka lembra-me que a ternura, a dignidade e a acção continuam a ser a maior força de transformação social.


Cláudio Anaia
Militante da Justiça e Direitos Humanos

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