Por António Matias Lopes A América votou. A Europa vai ter de voar sozinha
Barreiro
As intercalares de 3 de novembro não mudaram o inquilino da Casa Branca. Mas revelam uma democracia redesenhada a régua e esquadro, um país partido entre cidades e campos e uma Europa que, entre tumultos nas ruas e o fim da tutela americana, continua a adiar a pergunta essencial: que potência quer ser.

Por Jornal Rostos
Há votos que escolhem um governo. Há votos que corrigem um rumo. E há votos que, sem mudar quem ocupa a Casa Branca, mudam a forma como o resto do mundo tem de olhar para Washington. As intercalares de 3 de novembro pertencem a esta terceira categoria.
Os democratas conquistaram a Câmara dos Representantes e o Senado. Donald Trump perde a maioria que lhe permitia governar quase sem contrapeso e recebe, a meio do mandato, um aviso claro do eleitorado. Na mesma semana, a Europa contava montras partidas em Paris, Milão, Frankfurt e Madrid.
A leitura mais cómoda seria a de uma correção de trajetória: o sistema funcionou, os equilíbrios voltaram, o pêndulo regressou ao centro. Essa leitura é insuficiente. Os comentadores europeus discutem o que muda em Washington. A pergunta certa é outra: o que muda em nós.
Este texto responde em três partes. Primeiro, o que as intercalares revelam sobre a América: a lógica estrutural destas eleições, a engenharia do mapa eleitoral, de que o Texas é o caso exemplar, e a fratura entre cidades e periferias. Depois, a Europa das ruas e das fronteiras, onde cresce o conflito social e a extrema-direita explora a imigração. Por fim, a Europa que tem de aprender a defender-se sozinha, na segurança, no comércio e na energia, e o lugar de Portugal nesse novo mapa.
PARTE I
A América que votou
Uma regra antiga da política americana
As intercalares raramente são uma eleição sobre o futuro. São, quase sempre, um referendo ao Presidente em funções. Desde a Segunda Guerra Mundial, o partido que ocupa a Casa Branca perdeu lugares na Câmara dos Representantes em quase todas as intercalares, com as exceções de 1998 e 2002. As perdas médias superam as duas dezenas de lugares.
A ciência política tem explicações para esta regularidade. Angus Campbell descreveu-a como um ciclo de «surto e declínio»: o entusiasmo que leva eleitores ocasionais às urnas numa presidencial desaparece dois anos depois, e com ele parte da base do vencedor. Edward Tufte mostrou que o resultado das intercalares acompanha de perto a popularidade presidencial e o estado da economia. Em ambos os casos, a conclusão é a mesma: o eleitorado das intercalares é mais pequeno, mais mobilizado pela insatisfação e menos disposto a dar carta branca.
Lido assim, o resultado de 3 de novembro não é uma anomalia. É a confirmação de um padrão. O que o torna politicamente relevante é o contexto em que aconteceu: um Presidente que governou largamente por decreto, um partido republicano profundamente identificado com a sua liderança e, sobretudo, um mapa eleitoral redesenhado precisamente para impedir este desfecho.
Texas: o laboratório do mapa eleitoral
Nos Estados Unidos, os distritos eleitorais da Câmara dos Representantes são redesenhados, por regra, depois de cada censo decenal. No verão de 2025, com o incentivo explícito da Casa Branca, a maioria republicana texana decidiu fazê-lo a meio da década, sem novo censo, com um objetivo assumido: ganhar cerca de cinco lugares adicionais.
A técnica é conhecida desde o século XIX e tem nome próprio, gerrymandering. Assenta em duas operações. A primeira concentra os eleitores do adversário num pequeno número de distritos, onde vencem por margens enormes e desperdiçam votos. A segunda fragmenta os restantes por vários distritos, onde ficam sempre em minoria. O resultado é um mapa em que a mesma distribuição de votos produz uma distribuição de lugares muito diferente.
A reação foi intensa. Os deputados democratas da assembleia estadual abandonaram o Texas durante cerca de duas semanas para impedir o quórum. Não travaram o mapa, mas transformaram uma manobra técnica num escândalo nacional. A Califórnia respondeu com a Proposta 50, aprovada em referendo, que suspendeu a sua comissão independente e redesenhou os distritos no sentido inverso. Missouri e Carolina do Norte seguiram o Texas. Uma questão que parecia técnica tornou-se uma corrida ao armamento cartográfico.
Os tribunais pouco puderam fazer. Em 2019, no caso Rucho v. Common Cause, o Supremo Tribunal decidiu que a manipulação partidária dos distritos não pode ser apreciada pelos tribunais federais, por ser uma questão política. A contestação teve de se apoiar no argumento racial, ao abrigo da Lei dos Direitos de Voto, e o mapa texano acabou por ser aplicado nestas eleições.
Por justiça analítica, convém registar os argumentos do outro lado. Os republicanos sustentam que o redesenho é legal, que os democratas fizeram o mesmo durante décadas em estados como o Illinois ou o Maryland, e que o novo mapa reflete a deslocação real do eleitorado hispânico do sul do Texas, que em 2024 votou republicano em condados historicamente democratas. É um argumento que não deve ser descartado.
Quando quem governa redesenha o terreno antes de o jogo começar, o eleitor deixa de escolher os seus representantes e passa a ser escolhido por eles.
Mas o problema de fundo mantém-se. O redesenho a meio da década rompe uma convenção que conferia previsibilidade e legitimidade ao sistema. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt chamam a estas convenções as «grades de proteção» da democracia: regras não escritas de contenção, cuja erosão precede muitas vezes a degradação das instituições formais. Que os democratas tenham conquistado a Câmara num terreno desenhado contra eles torna o resultado mais expressivo, mas não repara o dano.
A cidade como fronteira política
O caso texano tem uma dimensão urbana que interessa particularmente a quem estuda as cidades. O voto democrata concentra-se nas grandes áreas metropolitanas: Houston, Dallas-Fort Worth, Austin e San Antonio. É aí que se produz a grande maioria da riqueza do estado, que se fixam as universidades, as sedes empresariais e a imigração qualificada. O novo mapa fragmenta essas áreas e dilui o seu voto em distritos dominados pelo eleitorado rural e periurbano.
Jonathan Rodden, em Why Cities Lose, mostrou que este desequilíbrio não resulta apenas da manipulação. Os sistemas de círculos uninominais penalizam estruturalmente os partidos cujo eleitorado está concentrado nas cidades, porque acumulam votos desperdiçados em distritos urbanos que ganham com margens esmagadoras. A engenharia eleitoral apenas amplifica uma desvantagem que a própria geografia já produz.
Bill Bishop chamou a este processo The Big Sort: a tendência dos americanos para viverem cada vez mais entre pessoas que pensam como eles, de modo que a clivagem partidária se tornou também uma clivagem de território, de estilo de vida e de densidade. A pergunta «em que partido votas?» passou a ter uma resposta quase previsível a partir de outra: «vives numa cidade ou fora dela?».
Esta fratura não é exclusivamente americana. Andrés Rodríguez-Pose descreveu-a na Europa como a «vingança dos lugares que não contam»: territórios em declínio industrial, demográfico ou comercial que exprimem nas urnas o ressentimento de quem se sente esquecido pelas metrópoles globais que Saskia Sassen analisou. O voto de protesto no interior de vários países europeus, e também nas periferias metropolitanas, obedece a lógicas semelhantes.
O desenho de um território nunca é neutro. Seja através de distritos eleitorais, de investimentos públicos, de redes de transportes ou da localização de serviços, quem desenha o espaço desenha também a distribuição do poder. A erosão dos centros urbanos e o abandono das periferias não são apenas fenómenos económicos: são, cada vez mais, fenómenos políticos.
Poder partilhado, América bloqueada
Com as duas câmaras, os democratas ganham instrumentos poderosos. Controlam as comissões, com poder de intimação e de inquérito. Controlam o orçamento federal, o chamado poder da bolsa, que lhes permite condicionar programas, prioridades e até a execução da política externa. No Senado, passam a decidir as confirmações de juízes, embaixadores e membros do governo.
Mas o Presidente conserva o veto, que só pode ser ultrapassado por dois terços de cada câmara, uma maioria que nenhum dos partidos tem. Conserva a condução da política externa, o comando das Forças Armadas e uma margem larga para agir sozinho em matéria comercial e de segurança, através de ordens executivas e de leis de emergência. Pode até deixar de gastar o dinheiro que o Congresso aprovar. O Congresso investiga e denuncia, mas não impede.
David Mayhew demonstrou, em Divided We Govern, que governos divididos não são necessariamente governos paralisados. Mas isso pressupunha uma cultura de compromisso que hoje está muito enfraquecida. O cenário mais provável é uma coabitação tensa, marcada por inquéritos parlamentares, disputas orçamentais e batalhas judiciais. Quem trava Trump são sobretudo os tribunais: foi o Supremo, e não o Congresso, que lhe anulou as tarifas de emergência em fevereiro.
E o partido começa a largá-lo. Trump não pode recandidatar-se. Vance, o provável herdeiro, já culpou em público a guerra do Irão pela derrota. Os republicanos vão pensar em 2028, não em obedecer.
A Europa cometeria um erro grave se lesse estes resultados como o regresso à América de antes de 2016. A sociedade americana está mais dividida, o protecionismo deixou de ter partido e a atenção estratégica de Washington desloca-se, há mais de uma década, para o Pacífico e para a rivalidade com a China. Para a Europa, é o pior cenário: uma América paralisada em casa e imprevisível lá fora. Não há aliado com quem contar. Há uma potência com quem negociar.
PARTE II
A Europa nas ruas e nas fronteiras
O outono das ruas
Os factos. A 17 de outubro, protestos contra o custo de vida transformaram-se em tumultos em França, Itália, Bélgica e Albânia. Num só fim de semana, a polícia francesa deteve mais de 1.300 pessoas. Itália mandou 500 militares para Milão. Na Alemanha, as manifestações de 31 de outubro acabaram em pilhagens e ataques à polícia. Em Madrid, jovens acamparam na Puerta del Sol e foi convocada a primeira greve geral em catorze anos. Em Lisboa e no Porto, dezenas de milhares marcharam pela habitação.
As causas repetem-se: rendas impossíveis, combustíveis mais caros por causa da guerra no Golfo, escolas degradadas, serviços públicos em queda. Os protagonistas também: jovens que não conseguem sair de casa dos pais.
Há dois diagnósticos em disputa. Trump, o húngaro Péter Magyar e o polaco Donald Tusk culpam a imigração. Macron recusa essa leitura e fala de crise social.
Os dois têm parte de razão. Há bairros onde a integração falhou. Mas a maioria dos que marcharam em Lisboa ou Madrid não é imigrante: são filhos da classe média que viram o elevador social parar. Quem só fala de imigração falha metade do problema. Quem a ignora entrega a outra metade à extrema-direita.
Repatriar: o que já foi decidido e o que não resolve
A Europa já escolheu. Em junho, o Parlamento Europeu aprovou o novo Regulamento do Retorno por 418 votos contra 218. As expulsões ficam mais rápidas, a detenção pode ir até dois anos e os migrantes em situação irregular podem ser enviados para centros de retorno em países terceiros, mesmo sem ligação ao seu país de origem.
Mas os números não acompanham a retórica. A Europa só executa entre um quinto e pouco mais de um quarto das ordens de expulsão que emite. Os países de origem não cooperam e os tribunais intervêm. O regulamento pode melhorar esta taxa, mas não a transforma.
É preciso separar duas coisas. Expulsar quem não tem direito a ficar é aplicar a lei, e sem isso o sistema perde credibilidade. A remigração que setores da AfD defendem é outra coisa: pressionar a saída de residentes legais ou até de cidadãos de origem estrangeira. Isso viola os tratados e as constituições, e abriria um conflito civil.
O essencial é que as expulsões não resolvem os tumultos. Os jovens de Madrid e Lisboa não vão ser repatriados para lado nenhum. A maioria dos que pilharam em Lyon ou Frankfurt nasceu na Europa. Vender o retorno como solução para a crise urbana é uma fraude política.
As cidades, onde o conflito se decide
O conflito é urbano. A resposta tem de ser urbana. Cinco frentes:
• Habitação pública. Viena mantém há um século um grande parque público e cooperativo que segura as rendas. Munique obriga os promotores a ceder habitação acessível quando o plano valoriza os seus terrenos. Portugal tem cerca de 2% de habitação pública. A meta deve ser duplicá-la numa década, com solo público devoluto, edifícios do Estado e as verbas do PRR por executar.
• Escola nas periferias. Em França, os tumultos começaram com protestos de alunos. Turmas mais pequenas, incentivos para os professores ficarem e escolas abertas ao fim de semana custam menos do que reconstruir bairros.
• Polícia de proximidade. Agentes que conhecem a rua, e não só brigadas que chegam quando tudo arde. A segurança é um direito dos bairros pobres antes de ser bandeira da extrema-direita.
• Centros vivos. Na minha investigação sobre a Baixa de Coimbra, vi como o centro esvaziado corta os laços entre gerações e classes. Habitação permanente e comércio de proximidade fazem do centro um lugar de encontro, não de raiva.
• Um fundo europeu. A coesão não pode ficar para trás enquanto a defesa absorve todas as novas verbas. Um fundo para a habitação e a regeneração urbana, financiado por dívida comum, seria a resposta à altura.
A extrema-direita muda de embalagem
A derrota de Trump partiu a AfD ao meio. Os transatlânticos, como Maximilian Krah, querem aprofundar a aliança com os republicanos. Os soberanistas, muitos próximos de Moscovo, acusam o partido de ter calado as críticas a Washington enquanto a guerra no Golfo encarecia a vida dos alemães. Alice Weidel inclinou-se para os segundos: culpou a guerra e pediu o fim rápido dos conflitos no Irão e na Ucrânia.
A extrema-direita europeia sai destas intercalares mais soberanista e mais anti-americana. Por isso, mais perigosa. Enquanto era sucursal do trumpismo, era fácil denunciá-la. A falar em nome do interesse nacional contra Washington e Bruxelas, chega ao eleitor do centro que paga a fatura da energia. O programa não muda: menos Europa, vetos nacionais, gás russo, fronteiras fechadas. Muda a embalagem.
PARTE III
A Europa sozinha
Segurança: preparar-se até para o impensável
A guerra na Ucrânia continua a ser o grande teste à maturidade política europeia. Sem o armamento, as informações e a logística americanas, Kiev não teria resistido como resistiu. Um Congresso democrata pode pressionar a Casa Branca a manter esses compromissos: inscrever verbas consignadas no orçamento, impor relatórios sobre a sua execução, condicionar a venda de armamento. São instrumentos lentos e indiretos. Pressionar não é decidir, e quem executa a ajuda, ao ritmo que entender, continua a ser o Presidente.
Mais grave: a hipótese de uma agressão americana já não é ficção. Em janeiro, Trump quis anexar a Gronelândia, território de um aliado da NATO. A Dinamarca, a França, a Alemanha, a Suécia, a Noruega, o Reino Unido, a Finlândia e os Países Baixos enviaram militares para a ilha. Oficialmente, foi um exercício contra a Rússia e a China. Na prática, foi o primeiro ensaio de uma defesa europeia sem os Estados Unidos.
Macron foi mais longe. Disse que a França estava pronta a dissuadir para defender o solo europeu, alargando implicitamente a dissuasão nuclear francesa a uma ameaça vinda de Washington. Em fevereiro, Merz abriu conversações com Paris sobre uma dissuasão nuclear europeia. Há um ano, nenhum chanceler alemão o teria feito.
Não é provável que a ameaça americana seja militar. Será económica, tecnológica e política: tarifas punitivas, corte de serviços digitais, pressão sobre governos, apoio a partidos que dividam a União. É aí que a Europa está mais exposta. As dependências são conhecidas:
• Nuclear. Só a França tem uma dissuasão independente. As ogivas britânicas dependem de mísseis americanos, e as bombas nucleares guardadas na Alemanha são americanas.
• Informações e comando. Os satélites, a vigilância e os sistemas de comando da NATO são, no essencial, americanos.
• Armamento. Os F-35 comprados por vários países europeus dependem de software e peças dos EUA.
• Digital. A nuvem, os dados e as comunicações das empresas e dos governos europeus correm em servidores americanos. A própria Ucrânia depende da Starlink de Elon Musk.
A Europa já começou a reagir. Na cimeira de Haia, em junho de 2025, os aliados comprometeram-se a elevar a despesa em defesa e segurança para 5% do PIB até 2035, dos quais 3,5% em defesa propriamente dita. A Comissão lançou o plano ReArm Europe, ou Readiness 2030, que pretende mobilizar até 800 mil milhões de euros. A despesa europeia em defesa subiu perto de 80% em quatro anos.
Isso não chega. Há duas décadas, Robert Kagan escreveu que os americanos eram de Marte e os europeus de Vénus. A pergunta já não é quanto gasta cada aliado, é que parte da sua segurança é a Europa capaz de garantir sozinha. Gastar mais a comprar material americano é financiar a própria dependência. A autonomia mede-se na capacidade de produzir munições à escala necessária, de integrar uma indústria de defesa fragmentada, de proteger cabos submarinos, redes energéticas e portos: a quem se compra e quem controla o botão.
Comércio: o protecionismo não se vota fora
As tarifas de Trump puseram as trocas entre os Estados Unidos e a União Europeia sob tensão permanente. O acordo de julho de 2025, que fixou uma tarifa de 15% sobre a maioria das exportações europeias, trouxe alguma previsibilidade, mas a um preço elevado e sem garantia de estabilidade. As empresas europeias, e as alemãs em particular, decidem investimentos sem saber que regras valerão amanhã no mercado americano.
O novo Congresso poderá escrutinar melhor essa política, mas dificilmente retirará ao Presidente os instrumentos que lhe permitem agir sozinho. E o protecionismo americano tornou-se transversal. A administração Biden manteve as tarifas sobre a China e lançou, com o Inflation Reduction Act e o CHIPS Act, a mais ambiciosa política industrial americana em décadas.
A resposta europeia não pode ser negociar exceção a exceção. O relatório de Mario Draghi, publicado em 2024, estimou um défice de investimento de 750 a 800 mil milhões de euros por ano, perto de 5% do PIB da União, e apontou as causas com rara franqueza: mercados de capitais fragmentados, regulação excessiva, atraso tecnológico e incapacidade de criar escala. Quase dois anos depois, a maioria dessas recomendações continua por executar.
Energia: soberania antes de ambiente
A guerra com o Irão e a instabilidade dos mercados lembraram que um conflito distante chega depressa às faturas das famílias e às margens das fábricas. Depois de reduzir a dependência do gás russo, a Europa passou a depender muito mais do gás natural liquefeito americano. Trocou uma vulnerabilidade por outra, menos hostil, mas não menos política.
A transição energética deixou de ser apenas uma causa ambiental. É uma questão de soberania, de segurança e de competitividade. Não basta fixar metas de descarbonização ambiciosas: é preciso garantir que a indústria europeia consegue cumpri-las sem transferir produção, emprego e emissões para outros continentes.
Há ainda uma dimensão territorial que raramente entra no debate. Parques solares e eólicos, linhas de muito alta tensão, centros de dados e unidades de hidrogénio instalam-se sobretudo fora das grandes cidades. Se essas regiões receberem os custos paisagísticos e ambientais sem receberem emprego, receita e serviços, a transição alimentará a mesma geografia do ressentimento que hoje se exprime nas urnas, nos Estados Unidos como na Europa.
O problema europeu está na Europa
Talvez a questão decisiva não esteja em Washington. Está em Bruxelas, em Berlim, em Paris, em Roma, em Madrid, em Lisboa. Somos cerca de 450 milhões de pessoas, com um dos maiores mercados do mundo, universidades de excelência e uma base industrial de que a economia global continua a precisar. E, no entanto, a política externa exige unanimidade e fala a várias vozes, a defesa depende de capacidades alheias e a política industrial faz-se, na prática, à escala de cada país.
A Europa tem armas para responder e não as usa. A unanimidade permite que um só governo bloqueie sanções, ajuda à Ucrânia ou orçamentos comuns. É preciso passar à maioria qualificada e, onde não for possível, avançar em cooperação reforçada com quem quiser. O preço é uma Europa a duas velocidades: um núcleo que integra defesa, energia e finanças, e uma periferia que fica só no mercado comum.
A Europa passa a vida a discutir a sua autonomia e a adiar os instrumentos que a tornariam real.
O diagnóstico não é novo. O que falta é a disponibilidade para pagar o preço político das soluções: abdicar da unanimidade, aceitar consolidações industriais que deixam de ser nacionais, mutualizar investimento em defesa e tecnologia, harmonizar regras de mercados de capitais. Cada um destes passos tem custos internos imediatos e benefícios difusos a prazo. É esse desfasamento que a política democrática tem mais dificuldade em gerir.
Dez decisões para os próximos dois anos
Chega de diagnósticos. Eis o que a Europa deveria decidir antes de 2028, quando a América voltar a votar.
1. Comprar europeu. Toda a nova despesa de defesa financiada com dinheiro comum deve ir para equipamento produzido na Europa, com software e manutenção europeus.
2. Uma dissuasão nuclear europeia. Formalizar o diálogo entre Paris, Londres e Berlim: quem decide, que países ficam cobertos, quem paga.
3. Satélites e comando próprios. Acelerar a constelação europeia de comunicações seguras e criar um comando operacional europeu capaz de agir sem a NATO.
4. Ativar a cláusula de defesa mútua da União. O artigo 42.º, n.º 7, do Tratado da União obriga os Estados-membros a defender-se uns aos outros. Tem de deixar de ser letra morta e ganhar planos, exercícios e forças atribuídas.
5. Nuvem e dados soberanos. Os dados dos Estados, dos hospitais e das infraestruturas críticas devem ficar em servidores sob jurisdição europeia.
6. Armas económicas prontas. A União tem desde 2023 um instrumento contra a coação económica que nunca usou. Deve preparar listas de retaliação contra tarifas punitivas, sejam elas russas, chinesas ou americanas.
7. Acabar com a unanimidade na política externa. Passar à maioria qualificada, para que um só governo não bloqueie sanções ou ajuda à Ucrânia.
8. Retorno eficaz, sem remigração. Aplicar o novo regulamento e expulsar quem não tem direito a ficar. Recusar qualquer política contra residentes legais ou cidadãos.
9. Um fundo europeu para a habitação. Financiado com dívida comum, como o foi a recuperação pós-pandemia, para construir habitação pública e regenerar centros urbanos e periferias.
10. A escola como primeira linha de segurança. Investimento dirigido às escolas das periferias, onde começaram os tumultos de outubro.
Nenhuma destas medidas é utópica. Todas têm base jurídica, precedentes e dinheiro disponível. O que falta é decisão política.
E Portugal?
Para nós, nada disto é abstrato. Somos uma economia pequena e aberta, muito sensível ao preço da energia, aos fretes, às taxas de juro e à confiança dos investidores. A instabilidade transatlântica pode pesar nas exportações, na indústria e no turismo, e os Estados Unidos são um dos principais mercados de destino fora da União.
Mas pode também abrir portas. Portugal tem uma posição atlântica rara, uma produção de eletricidade maioritariamente renovável, um porto de águas profundas em Sines com terminal de gás natural liquefeito e uma tradição de ligação entre a Europa, África e as Américas. Numa Europa que procura encurtar cadeias de abastecimento e aproximar a produção dos seus mercados, há espaço para um papel muito maior.
Esse espaço não se ocupa com discursos sobre a geografia. Ocupa-se com estratégia, planeamento territorial, investimento, qualificação, licenciamento ágil e capacidade de execução. E com uma consciência que a lição do Texas torna evidente: o modo como desenhamos o território, entre litoral e interior, entre centros e periferias, determina quem participa no desenvolvimento e quem fica de fora.
Portugal tem de estar no núcleo da Europa. Um país pequeno e periférico só pesa onde as decisões são partilhadas. Mas essa força não se constrói apenas em Bruxelas. Constrói-se em cada cidade onde um jovem consegue pagar uma casa, em cada escola que não desiste dos seus alunos, em cada decisão de comprar europeu.
A Europa já não tem tutor
Durante oitenta anos, a Europa delegou a segurança em Washington e dedicou-se a construir mercado e bem-estar. Esse arranjo acabou. Não acabou a 3 de novembro; acabou quando um Presidente americano quis anexar território de um aliado e ninguém em Washington o conseguiu impedir.
As intercalares mostraram que a democracia americana ainda sabe produzir contrapesos, mesmo quando o próprio mapa eleitoral é desenhado para os evitar. Mas revelaram também uma democracia mais frágil, mais polarizada e mais dividida territorialmente do que em qualquer outro momento das últimas décadas. A América que vem aí estará dividida, paralisada em casa e imprevisível lá fora, seja quem for o próximo Presidente.
A Europa tem duas ameaças ao mesmo tempo: o conflito nas suas ruas e a perda do seu protetor. São a mesma ameaça vista de dois lados. Uma Europa que não dá casa nem futuro aos seus jovens alimenta os partidos que a querem dividir. Uma Europa dividida não se defende de ninguém, nem da Rússia nem da América.
Não pode continuar a ser uma potência económica que entrega a outros a sua segurança, uma potência reguladora sem músculo industrial, uma comunidade que reage aos acontecimentos em vez de os antecipar.
A América já votou. Cabe agora à Europa decidir o que quer ser. Voar sozinha não é uma escolha. É a única opção que resta.
António Matias Lopes é doutorando em Sociologia – Cidades e Culturas Urbanas na FEUC/CES da Universidade de Coimbra.
Referências
Bishop, B. (2008). The Big Sort: Why the Clustering of Like-Minded America Is Tearing Us Apart. Boston: Houghton Mifflin.
Campbell, A. (1960). Surge and Decline: A Study of Electoral Change. Public Opinion Quarterly, 24(3).
Draghi, M. (2024). The Future of European Competitiveness. Bruxelas: Comissão Europeia.
Kagan, R. (2003). Of Paradise and Power: America and Europe in the New World Order. Nova Iorque: Knopf.
Levitsky, S. e Ziblatt, D. (2018). How Democracies Die. Nova Iorque: Crown.
Mayhew, D. (1991). Divided We Govern: Party Control, Lawmaking, and Investigations, 1946–1990. New Haven: Yale University Press.
Rodden, J. (2019). Why Cities Lose: The Deep Roots of the Urban-Rural Political Divide. Nova Iorque: Basic Books.
Rodríguez-Pose, A. (2018). The revenge of the places that don't matter (and what to do about it). Cambridge Journal of Regions, Economy and Society, 11(1).
Sassen, S. (1991). The Global City: New York, London, Tokyo. Princeton: Princeton University Press.
Tufte, E. (1975). Determinants of the Outcomes of Midterm Congressional Elections. American Political Science Review, 69(3).
Fontes jornalísticas
CBS News — resultados e reações às intercalares de 2026: https://www.cbsnews.com/live-updates/midterm-election-results-2026-democrats-house-senate-trump/
ECFR — A Democratic win isn’t enough: How Europe can prepare for Trump beyond the midterms: https://ecfr.eu/article/a-democratic-win-isnt-enough-how-europe-can-prepare-for-trump-beyond-the-midterms/
t-online — Weidel sobre as intercalares: https://www.t-online.de/nachrichten/deutschland/innenpolitik/id_101512174/afd-chefin-weidel-ausmass-der-niederlage-bemerkenswert-midterms-usa.html
t-online — A AfD depois da derrota de Trump: https://www.t-online.de/nachrichten/deutschland/innenpolitik/id_101514572/afd-nach-trumps-niederlage-eine-grosse-streitfrage-flammt-wieder-auf.html
Novembro 2026













