BARREIRO – Rosto do Ano 2025«Há sempre uma geração nova a surgir, isso dá-me muita esperança»
afirma Tiago Sousa, na área Música

Por Jornal Rostos
Tiago Sousa, pianista, organista e compositor autodidata, a construir um percurso musical marcadamente minimalista e contemporâneo em discos como A Thousand Strings (Discrepant), Ripples on the Surface (Holuzam), Insónia (Humming Conch) ou Organic Music Tapes (Sucata Tapes). Um nome que faz parte da história do OUT.FEST (Barreiro). São duas décadas de criatividade, de inspiração, de música sustentada na quietude que se estende em harmonias crepusculares e melodias cíclicas. Uma vida marcada por concertos por todo o país.
Um prémio à comunidade de laços e afectos
Que significado atribuis receber a distinção Rosto do Ano?
«Naturalmente, tem um significado muito importante, desde logo, porque não sou natural do Barreiro. As pessoas pensam que nasci aqui, mas não, eu vim para o Barreiro em 1998. Sinto que a cidade me transformou muito e contribuiu para o meu processo criativo, pelo facto da existência de uma comunidade artística muito marcada por laços de amizade profundos. Sem dúvida que, para mim, este prémio é, muito mais, um prémio a essas ligações, a esse conjunto, a essa comunidade, do que para mim individualmente. Sem esses contributos, sem essa partilha, sem estar presente nos concertos, sem estar nas salas de ensaio, nas garagens, sem essa vivência toda a minha música não seria aquilo que é, portanto, ao homenagearem-me estão a homenagear esta comunidade e estes laços de afectos»
O Barreiro em toda a margem sul é muito peculiar
Sendo a tua distinção na área da música como sentes a cultura musical no concelho do Barreiro?
«A actividade musical no Barreiro tem uma vivência muito própria que não é replicável. O Barreiro, em toda a margem sul, é muito peculiar e muito particular, dificilmente replicamos esta história e esta vivência que vem de muito tempo para trás, isso, tem um carácter que é importante preservar. E, neste caso, alerto para essa necessidade. As cidades estão a transformar-se a um ritmo muito rápido e, muitas vezes, estas comunidades que são muito frágeis e muito sensíveis, acabam por ver os espaços de actuação fechar, e, ver as possibilidades destes clusters, nas suas salas de ensaio, garagens de gravação, serem ameaçados. Tudo isso, transforma o que foi um trabalho paulatino, desde os anos 70, até um pouco antes, num espaço de cinco ou dez anos, pode desaparecer muito rapidamente. Isso preocupa-me. Por isso, deixo este sinal de alerta».
Uma marca da identidade da cidade
Perante esse cenário, que perspectivas a esta vertente da vida local?
«Acho que o mais importante a fazer, ao nível de quem tomas as decisões e decide as políticas, será cuidar, olhar para estas realidades, não como realidades de massas, que não são, porque de facto são realidades de franjas, mas que podem catapultar e podem permitir divulgar a comunidade. O Barreiro é conhecido por esta realidade. Em muitos, por todo o país, por onde vou tocar, referem que o Barreiro é muito fixe, porque estiveram aqui num festival ou num concerto. Portanto, o que a priori, pode ser um pouco de franjas, tem impacto a nível nacional e tem impacto a nível internacional. Deve, portanto, haver essa preocupação, esse cuidado, de não julgar pelo número. Hoje, é tudo muito globalizado, muito voltado para as métricas. O fenómeno da música pode não ser muito mobilizador, mas é um fenómeno que marca a cidade, marca a identidade da cidade, por isso, deve existir a preocupação de aproximar os barreirenses destas realidades, e, ter esse cuidado de preservar estes clusters, preservar este ecossistema, não deixar que as associações passem por dificuldades, para que os espaços comunitários que continuem a ser casa destas comunidades. Vejo que há sempre uma geração nova a surgir, isso dá-me muita esperança. Mas, se estas gerações não forem acompanhadas e incentivadas, como a nossa geração foi, estes espaços vão ter mais dificuldades. Não é deixem de existir as coisas, mas a propensão que têm para se expandir e serem mais reconhecidas, na origem, acaba por morrer».
Tudo o que eu faço está centrado na música
Que significado tem a música na tua vida?
«A música para mim é um sentido de existência, é um modo de vida, perpassa a minha em todos os capítulos. Tudo o que eu faço está centrado na música, desde que acordo ao deitar-me. A música para mim é incontornável, na verdade. É um sentido de existir. É um modo de estar na vida. A música tem um aspecto filosófico. A música é um fenómeno acústico, que depende da ressonância, tem muito esta coisa da vibração e da forma como ela se expande no universo, tocando nos corpos, activando os corpos, criando estes corpos ressonância. Isso explica muito o que é a vida, numa forma mais cronológica. Também, do ponto de vista do ouvinte, do espectador, que é sempre um ponto de vista difícil de comunicar e replicar, que é muito pessoal e muito subjectivo, tudo isso contribui para a música ser um fenómeno social. Tudo isso me fascina, tudo isso me interessa muito.»
Preservar a vivência própria do Barreiro
Que mensagem queres deixar aos barreirenses?
«A mensagem que é importante deixar é que estão acontecer transformações muito grandes na cidade, há pessoas novas a chegar, há pessoas que estão a partir, que estes vínculos não se quebrem, que os veem tenham essa atenção ao que se passa na sua cidade. O Barreiro acaba por ser muito diferente das outras cidades, à volta de Lisboa, porque Não é só uma cidade satélite de Lisboa, é uma cidade que tem uma vivência. As pessoas, que estão a chegar, e as pessoas que estão a partir, não quebrem esses laços, não quebrem esse vínculo. Tenha essa atenção e esse cuidado de preservar toda esta vivência».
Cerimónia de Entrega das distinções Rosto do Ano
Tiago Sousa, pelo seu percurso criativo merecidamente recebe a distinção Rosto do Ano 2025 na área da Música. A Cerimónia de Entrega das distinções Rosto do Ano, vai decorrer numa sala dos Cinemas Castello Lopes, no Barra Shopping, no próximo dia 27 de Setembro, pelas 10h30, sendo integrada no programa de comemorações dos 25 anos do jornal Rostos.
António Sousa Pereira
T- 180
Fotografia - Marta Sousa Pereira













