E quando Zelensky se torna putinista? Esboço de análise geopolítica a partir do BarreiroPor André Carmo
Não pude deixar de esboçar um sorriso ao ler a notícia do Diário de Notícias, segundo a qual “Zelensky [está] disponível para encontro com Putin na Turquia[i]”.
[i] https://www.dn.pt/internacional/zelensky-disponvel-para-encontro-com-putin-na-turquia

Por Jornal Rostos
Tivesse isto ocorrido há dois ou três anos e o próprio Zelensky seria acusado de ser putinista e teria de se lhe perguntar, de dedo em riste, a espumar pela boca e olhos faiscantes, se condenava ou não a invasão da Ucrânia pela Rússia. Ai dele se a resposta não saísse de chofre, categórica e definitiva, sem qualquer margem para hesitação, dúvida ou inquietação. Se assim fosse, dele se diria o que Maomé não dizia do toucinho. Porque durante demasiados anos, qualquer proposta que apontasse para a diplomacia e a negociação como chaves de resposta para o conflito em vez de acicatar o mais irracional dos militarismos, que procurasse compreender o fenómeno em toda a sua extensão e complexidade, alegando, por exemplo, que este não se reduzia a uma disputa entre dois Estados mas sim a uma questão geopolítica mais abrangente, seria ridicularizada, vilipendiada e achincalhada, alvo de cancelamento e processos de intenções.
E foi isso que aconteceu com o PCP e a CDU, no país e no Barreiro.
A 21 de fevereiro de 2002 a Rússia invadia o Donbass. Três dias depois, e por isso acusado de ter sido lento a reagir (parecem existir muitos Obikwelus na política portuguesa), o gabinete de imprensa do PCP divulgaria uma nota intitulada “O PCP apela à promoção de iniciativas de diálogo e à paz na Europa[i]”. Quase cinco anos volvidos, não se pode dizer que a mensagem, então recebida com enorme repulsa e ódio, numa peculiar amálgama de anti-comunismo primário e visceral russofobia, confundindo deliberadamente um governo com o seu povo, tenha envelhecido mal.
Nela se apelava, por exemplo, “à urgente desescalada do conflito, à instauração de um cessar-fogo e à abertura de uma via negocial”. Tendo em conta a disponibilidade agora manifestada para a negociação por parte de Zelensky, talvez se pudessem ter evitado alguma da destruição e do sofrimento entretanto causados devido à imposição do fervor belicista como dogma. Reafirmava-se ainda “a premente necessidade de iniciativas que contribuam para um processo de diálogo com vista a uma solução política para o conflito na Ucrânia” e sublinhava-se o facto, ainda hoje largamente ignorado, de que “a Rússia é um país capitalista, cujo posicionamento é determinado, no essencial, pelos interesses das suas elites e detentores dos seus grupos económicos, com uma concepção de classe oposta à do PCP”. Nem a existência de um Partido Comunista da Federação Russa fez soar as campainhas do discernimento nas cabecinhas de quem escolheu abdicar de pensar. Por fim, rematava-se com uma afirmação lapidar – “a solução não é a guerra, é a paz e a cooperação” – que seria incessantemente caricaturada e vítima de reductio ad absurdum quando, hoje, não parece mais do que elementar bom senso.
Agora que a passagem do tempo fez esmorecer a violência estrutural da “asfixia por pensamento único” e que até 75% dos ucranianos defendem a negociação com a Rússia como saída para o conflito[ii], onde param os anafados e militarmente inaptos guerrilheiros de teclado que defendiam a guerra até ao último ucraniano? Será que o povo ucraniano é agora putinista? Onde param os liberais de pacotilha que, vertendo as lágrimas de crocodilo do oportunismo, acicataram a deriva belicista e o fervor insano de archotes e forquilhas russofóbicas? Onde está aquela parte da esquerda que se deixou levar pelo canto melífluo do liberalismo prevalecente? Como agora se diz, ouvem-se os grilos.
Agora que já não há qualquer desculpa para alegar desconhecimento relativamente ao facto de vários países europeus, plenos de hipocrisia, terem continuado a comprar energia à Rússia[iii], das sanções impostas pela União Europeia terem falhado[iv] ou de que para melhorar as condições de vida das populações a ortodoxia orçamental é a regra mas para gastar 800 mil milhões em defesa (e concomitante desmantelamento do Estado Social) se pode flexibilizar tudo e mais um par de botas[v], bem que se podia parar para pensar. Como assinala Emmanuel Todd, “chegou o momento de compreendermos […] o comportamento destes dirigentes europeus que pretendem manter os seus povos em confronto com a Rússia e conduzi-los a uma nova pobreza. Continuar a guerra, em nome da Europa: eis a piada[vi]”.
Claro que exigir coerência ou integridade ao extremo-centro que faz da hipocrisia a alma do seu negócio é pedir demais. Nem a condenação da Câmara Municipal de Lisboa liderada pelo PS de Fernando Medina, por ter “enviado os nomes, as moradas, e os contactos de telefone de alguns manifestantes [num protesto em que se exigia a libertação de Alexey Navalny, opositor do regime de Putin] à embaixada russa em Lisboa e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia[vii]” foi capaz de gerar qualquer embaraço ou comoção.
Chegou, aliás, o PS Barreiro a dizer, em sessão de Assembleia Municipal realizada nos idos de 2022, que “o que se está a passar na Ucrânia, por obra da Federação Russa de Putin, é o mais profundo ataque à civilização nas relações políticas e internacionais que se conhece desde os anos 30 do século passado”, deixando de lado o facto de a Solução Final ser já da década de 40 e, depois disso, termos tido 20 anos de guerra no Vietname com cerca de 2 milhões de mortos civis, mais 20 anos no Afeganistão e 176.000 mortos civis, 8 anos de guerra no Iraque e 300.000 mortos civis, mais 10 anos de guerra na Líbia com 30.000 mortos civis, entre vários outros conflitos menos mortais motivados pelos EUA[viii]. Tudo isto foi pura e simplesmente varrido para debaixo do tapete, num exercício de malabarismo intelectual e branqueamento histórico bem ao jeito daquilo a que o filósofo esloveno Slavoj Zizek tem designado de “fascismos liberais”. Se alguma dúvida persiste, pode sempre lembrar-se o facto de que que a moção proposta pelo PS nessa mesma sessão acabaria por ser aprovada e enviada à Associação de Ucranianos em Portugal, cujo presidente era então Pavlo Sadokha, ex-assessor de um deputado do Svoboda, partido de extrema-direita, conhecido pelas suas simpatias neonazis[ix].
Quem navega sempre nas águas do oportunismo imediatista e da miopia política perde a capacidade de colocar as coisas em perspectiva. Elementar gesto de auto-defesa intelectual. Por isso, quando o consenso neoliberal julgava poder instrumentalizar a russobofia, quem vem de muito longe[x], e promover o anti-comunismo primário para daí retirar dividendos políticos esqueceu-se que, ao mesmo tempo, contribuía para acelerar a degradação das condições de vida dos povos trabalhadores europeus e, assim, abrir as portas ao fascismo que os irá devorar sem dó nem piedade.
André Carmo
Deputado municipal eleito pela CDU Barreiro (2021-2025)
Texto escrito sem recurso a IA
[i] https://www.pcp.pt/pcp-apela-promocao-de-iniciativas-de-dialogo-paz-na-europa
[ii] https://ukranews.com/en/news/1179632-75-of-ukrainians-are-open-to-negotiations-with-russia-to-end-the-war-according-to-kmis
[iii] https://www.jn.pt/mundo/artigo/paises-europeus-compram-hidrocarbonetos-a-russia-apesar-das-sancoes/18136469
[iv] https://executivedigest.sapo.pt/apos-20-rondas-de-sancoes-ue-comeca-a-ver-sinais-de-fragilidade-na-economia-russa/
[v] https://sicnoticias.pt/mundo/2025-03-04-flexibilizacao-das-regras-orcamentais-e-800-mil-milhoes-o-plano-para-aumentar-as-capacidades-militares-da-ue-9c27d44f
[vi] https://pt.mondediplo.com/2026/11/a-desagregacao-do-ocidente.html
[vii] https://24noticias.sapo.pt/atualidade/artigos/russiagate-camara-de-lisboa-condenada-a-pagar-mais-de-463-mil-euros-por-partilhar-dados-de-ativistas-anti-putin
[viii] https://www.warcosts.org/analysis/americas-wars-by-the-numbers
[ix] https://osfragmentos.substack.com/p/quem-e-pavlo-sadokha-as-ligacoes
[x] https://manueljoaoramos.substack.com/p/russophobia-forged













